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A ideia do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, de filiar o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles ao PSD com a perspectiva de fazer dele o candidato a chefe do Executivo da maior, mais rica e mais importante cidade do Brasil, movimenta o ambiente político, produz notícia, mas não se pode dizer que seja original nem necessariamente eficaz.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2011 | 03h06

Outros partidos já tentaram apostar em candidatos desprovidos de identidade e familiaridade locais, mas por motivos variados acabaram desistindo no meio do caminho.

Uns porque a manobra não passou disso, de mera manobra publicitária, outros porque tinham intenções outras ou porque a história pareceria esdrúxula demais quando confrontada com a realidade.

Há três casos envolvendo personagens bem conhecidos e nenhum foi adiante. O mais recente deles, o do ex-ministro Ciro Gomes, que, se arrependimento matasse, não estaria aqui para contar a história da transferência de seu domicílio eleitoral do Ceará para São Paulo, por influência do então presidente Lula que falava em lançá-lo candidato ao governo paulista em 2010.

No início dos anos 90, Jaime Lerner (ex-governador do Paraná e ex-prefeito de Curitiba) chegou a ser cogitado por Leonel Brizola como candidato a prefeito do Rio. Mais ou menos na mesma época o PSDB fez circular a versão de que o então senador Fernando Henrique Cardoso poderia ser candidato ao mesmo posto.

FH, apesar de nascido no Rio, construiu carreira longe da cidade, assim como Lerner que, não obstante, durante um período fez parte do governo Brizola.

Candidatura é coisa séria. Resulta, ou deveria resultar, de um comprometimento com o eleitor na execução de ações que, principalmente no caso dos municípios, tem a ver com o cotidiano do cidadão.

Para que alguém se torne ou se credencie a se tornar chefe do Poder Executivo de uma cidade, notadamente de grandes e complexas cidades como Rio e São Paulo, é preciso mais que a vontade de um partido de encontrar uma solução para si mesmo.

É necessário haver um mínimo de sustentação na realidade. Do contrário não estamos falando seriamente em candidaturas, mas numa conjugação da vaidade de quem aceita e da arrogância de quem acredita que pode sobrepor suas conveniências políticas ao interesse do cidadão.

Em órbita. O presidente do Senado, José Sarney, diz coisas que por sua posição alcançam repercussão, mas também acabam traduzindo o nível baixo da política brasileira.

Considerar que privilégios de parlamentares representam uma "homenagem" que o País presta à democracia, além de um desrespeito ao sentimento da maioria, mostra que Sarney desconecta os conceitos de homenagem e democracia de seus reais significados.

Ele mesmo perdeu chance de prestar homenagens à democracia com atitudes que anulam seu melhor momento na política - a condução da transição democrática - tornando-o um agente ativo do processo de desmoralização do Congresso.

Tiro no pé. A atuação da ministra Iriny Lopes, da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, querendo impor veto a propaganda e sugerindo à TV Globo mudanças no enredo de novela, dá a medida do uso que o PT faria do "controle social da mídia", caso conseguisse aprovar a medida.

A ministra tem contribuído mais para reunir repúdio ao plano - ainda na agenda do partido - que qualquer coisa que se possa dizer sobre a liberdade de expressão.

No caminho. A proposta de submeter a reforma política à consulta popular reuniu para conversa o vice Michel Temer e o deputado Miro Teixeira, ontem de manhã.

Ficou acertado que o PMDB apoiará o plebiscito e que a data ideal (2014, para Temer e 2012 na opinião de Miro) será discutida no processo.

Mas, a proposta só terá chance de ser aprovada se contar com adesão de "fora", a exemplo do que ocorreu com a lei da Ficha Limpa.

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