Forças Armadas não estão aptas a combater a violência, diz Lula

Informação foi dada por Tarso Genro, que falou que não comentaria questão que não é do Ministério da Justiça

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2008 | 18h12

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está convencido de que o assassinato de três jovens no Morro da Mineira, no Rio, depois de terem sido entregues a uma quadrilha por um tenente e vários soldados do Exército "comprova que as Forças Armadas não estão aptas" a atuar no combate à violência urbana, afirmou nesta terça-feira, 17, o ministro da Justiça, Tarso Genro. Ele deu entrevista ao chegar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para a posse de três novos ministros, numa solenidade à qual Lula também estará presente.   Veja também: Lula se diz indignado com mortes no Morro da Mineira Exército pede desculpas a mães de jovens mortos no Rio Jobim decidirá se Exército continua operação em favela Delegado do Rio pode pedir quebra de sigilo de militares Militares devem ser punidos, diz Jobim O Exército está preparado para atuar na segurança  pública?    "Não vou emitir juízo sobre uma questão que não é do Ministério da Justiça", disse o ministro. Genro lembrou que os militares do Exército que entregaram os três moradores do Morro da Providência a bandidos do Morro da Mineira estavam fiscalizando uma obra do governo de recuperação de residências. "Aí", disse Genro, "ocorreu essa tragédia, que é absolutamente lamentável."   O ministro da Justiça acrescentou: "Isso comprova, na visão do presidente, que é majoritária na sociedade que as Forças Armadas não estão aptas a tratar da questão da segurança pública. A sinalização é altamente negativa e as Forças Armadas vão tomar todas as providências duras para punir os responsáveis."   Mais cedo, o Exército fez seu primeiro contato oficial com a família das três vítimas. O general Mauro César Lorena Cid, comandante da 9.ª Brigada de Infantaria, se desculpou formalmente em nome do Exército. Acompanhadas de advogados, as mães dos jovens do Morro da Providência foram até o Ministério Público Estadual para ter acesso ao inquérito e formalizaram uma denúncia contra a União sob a acusação de triplo homicídio qualificado.   O ministro da Defesa, Nelson Jobim, e integrantes do alto escalão do Exército embarcaram para o Rio nesta manhã para decidir se as Forças Armadas irão continuam com a operação na comunidade. Segundo líderes comunitários, as obras do projeto Cimento Social no morro deverão ser retomadas até quinta-feira, mas só continuariam após a retirada das tropas.   Nesta terça-feira, o delegado da 4ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro (Central do Brasil), Rodrigo Domingues, também disse que pode pedir a quebra do sigilo telefônico dos 11 militares suspeitos de envolvimento na morte dos três jovens do Morro da Providência. Ele afirmou que pretende esclarecer a participação de cada um deles no episódio e que considerou estranho o fato de o caminhão do Exército ter entrado e saído do Morro da Mineira com facilidade, sem que tenha havido nenhum confronto.   Versões diferentes   Na segunda-feira, 16, depois de o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), chamar os militares de "marginais" e de ter classificado o crime de "atrocidade", a única sobrevivente contou uma versão bem diferente do que aconteceu. "Voltamos de táxi do baile da Mangueira. Na praça, no alto do morro, fomos parados e um soldado meteu a mão no cordão do Wellington. Ele reagiu e foi agredido. Reclamamos e eles disseram que estávamos presos sem nenhum motivo. Levaram eles e me liberaram", disse M., de 16 anos.   O tenente, o sargento e um soldado disseram em depoimento à polícia que Wellington reagiu com palavrões à abordagem. Desde o início da ocupação militar na Providência, outras 12 pessoas foram detidas por desacato. "O Exército não pode conviver com o ilícito. O militar pode e deve deter alguém que esteja em flagrante delito", justificou o chefe de Comunicação Social do Comando Militar do Leste, Carlos Alberto Neiva Barcellos.   Barcellos classificou o "incidente" como um "fato isolado", que não torna insustentável a presença do Exército no morro. Barcellos afirmou que o Exército "repudia veementemente qualquer desvio de conduta e qualquer ação fora da legalidade". Ele informou que foi aberto inquérito militar para apurar o crime.   O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, afirmou que o episódio comprova que o Exército não está preparado para atuar nas ruas do Rio. "Se a Polícia Militar, que vive esse problema diuturnamente há 200 anos, tem suas mazelas, uma corporação que começou a fazer isso há pouco tempo já incorrer num problema desses é uma demonstração disso", afirmou Beltrame.   Atualizado às 18h55

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.