Forma e conteúdo

De que servem as melhores ideias, propostas e respostas, se não se consegue expressá-las com clareza, harmonizando a fala e os gestos com o conteúdo do discurso? Se o público não entende, não acredita. A máxima chacriniana "quem não comunica se trumbica" continua em pleno vigor nesta campanha eleitoral comandada pelo nosso comunicador-chefe como um Chacrinha dos palanques.

Nelson Motta, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2010 | 00h00

Se um grupo de estrangeiros, sem saber nada sobre o Brasil e nem entender português, fosse contratado para assistir ao debate presidencial na Band, talvez pudesse dar novas contribuições aos marqueteiros.

Claro que eles não poderiam ter qualquer opinião sobre o conteúdo, mas serviriam para dar suas impressões, com a isenção do desconhecimento, sobre a forma com que os candidatos expressaram seus estilos e personalidades. As expressões faciais e corporais, a postura, os gestos, o tom da voz, as reações a perguntas podem dizer muito sobre a percepção da pessoa física do candidato pelos eleitores.

A visão distanciada dos estrangeiros poderia dar um enfoque diferente nas pesquisas qualitativas que os marqueteiros adoram. Eles poderiam oferecer novos subsídios sobre a aparência dos candidatos aos olhos de absolutos estranhos. Afinal, em uma eleição, parecer é tão ou mais importante do que ser.

No debate, os estrangeiros perceberiam que aquele senhor careca e magrelo de terno escuro, com um ar meio cansado, se expressava de forma meio professoral, parecia um político experiente, acostumado à exposição pública, que mantinha uma gesticulação discreta e uma postura adequada ao ritmo de suas falas, mostrando aparente segurança e alguma monotonia.

Já a senhora rechonchuda e com um grande topete, maquiada com esmero, parecia furiosa e tomada por um espírito guerreiro, de dedo em riste, com olhos rútilos e lábios trêmulos. Na maior parte do tempo se mostrou assertiva e ríspida no tom de voz, numa postura ofensiva de combatente. Falava como um general e, em vários momentos, parecia estar com muita raiva. Os estrangeiros teriam muito medo dela, mesmo sem entender o que dizia. Só pela forma de dizer.

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