Franceses dizem que Brasil demorou a dar alerta do 447; Aeronáutica nega

Franceses afirmam que se perdeu tempo nas buscas por falta de informação sobre troca de controle ao Senegal

Lúcia Jardim, PARIS, O Estadao de S.Paulo

03 Julho 2009 | 00h00

O primeiro relatório sobre a tragédia com o voo 447 da Air France acrescentou pouco ao que já se sabe sobre as possíveis causas do acidente, que matou 228 pessoas em 31 de maio. Uma das certezas anunciadas ontem pelos peritos franceses é que o Airbus A330 ainda estava íntegro quando caiu no Oceano Atlântico. Mas, se no campo técnico os avanços foram tímidos, sobraram críticas ao que foi classificado como "demora" do controle de voo do Brasil em perceber o desaparecimento do avião - o que teria provocado um atraso de "uma ou duas horas" nas operações de busca. Segundo o escritório de investigação francês (BEA), controladores de voo do Brasil não teriam transferido o voo 447 para as autoridades senegalesas, responsáveis pelo monitoramento do trajeto a partir do ponto virtual Tasil, no Oceano Atlântico. Os brasileiros teriam feito apenas a primeira etapa do protocolo, a coordenação, que consiste em passar dados sobre o plano de voo e dizer que a aeronave se aproximava da área controlada pelo Senegal. "A transferência não foi feita e os serviços de controle (de voo) não se preocuparam", acusou Alain Bouillard, responsável pela investigação. "Foi somente algumas horas depois que, na ausência de contato, os diferentes mecanismos de controle foram ativados. Às 7h30 (2h30 em Brasília) é que se deram conta de que o avião não estava nem em contato com o Brasil nem com Dacar." Bouillard evitou, no entanto, culpar um dos dois países pelo problema. "Não se pode falar em erro, mas em uma disfunção, que o BEA está investigando. Hoje, trabalhamos pela segurança e não para determinar responsabilidades". Em nota oficial, a Aeronáutica disse que, às 22h33 do dia 31 de maio, a tripulação da Air France fez o último contato por rádio com o controle de voo brasileiro, quando informou a hora estimada em que sobrevoaria as próximas posições virtuais previstas na rota. Esclareceu ainda que, imediatamente depois, os controladores avisaram ao centro de controle de voo de Dacar que o voo 447 estaria na posição virtual Tasil às 23h20, quando os senegaleses deveriam assumi-lo. A FAB reforçou ainda que, conforme acordo operacional firmado entre Brasil e Senegal no ano passado, se uma aeronave entrar no espaço aéreo de Dacar no horário previsto - ou até três minutos depois -, não há necessidade de nenhuma comunicação entre os órgãos de controle de voo. "Por se tratar de uma região onde o controle de tráfego aéreo é realizado essencialmente por comunicação (via rádio), caberia ao centro de controle de Dacar conferir o ingresso da aeronave no seu espaço aéreo, às 23h20, e alertar sobre eventuais problemas, como por exemplo a impossibilidade contato com o voo 447." AUTÓPSIAS Não é a primeira vez que o BEA reclama de autoridades brasileiras. No mês passado, o diretor do BEA, Paul-Louis Arslanian, já havia se queixado publicamente sobre o fato de um legista francês ter sido impedido de acompanhar as autópsias, o que gerou reação imediata da Polícia Federal. Ontem, Bouillard reiterou as queixas. "É algo que nos falta, não temos dados sobre o resultado das autópsias. Ele nos traria informações que poderiam confirmar algumas hipóteses", disse Bouillard, esclarecendo que o pedido às autoridades brasileiras já foi feito e agora os investigadores aguardam as análises. "Elas virão, com atraso, mas virão." O chefe das investigações só não quis comentar a decisão do Brasil de suspender as buscas por destroços. COLABORARAM TÂNIA MONTEIRO E BRUNO TAVARES

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