Francisco não abre mão de dar prioridade aos pobres

Atitudes tomadas pelo papa desde seu primeiro dia no Vaticano mostram que ele pretende mudar o foco da Igreja

Ocimara Balmant, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2013 | 00h58

Em março, três dias após a fumaça branca, Francisco disse em sua primeira audiência para a imprensa que gostaria de uma Igreja pobre para os pobres. A frase virou manchete e todos se perguntavam como seria isso na prática. A resposta, em forma de gestos - Francisco prefere fazer a falar -, surgiu no início deste mês, quando ele fez sua primeira viagem.

O destino foi a ilha de Lampedusa, no sul da Itália, local que recebe levas de imigrantes clandestinos do norte da África. Lá, usou como altar um barco de pesca para rezar por aqueles que não sobreviveram à travessia e pediu um "despertar das consciências" para combater a "globalização da indiferença".

"Ao ver isso, toda a Europa, cristã ou laica, franziu o nariz. Não há forma mais óbvia e direta de mostrar o que significa uma Igreja pobre para os pobres", explica o teólogo Fernando Altemeyer, da PUC-SP. "O que Francisco propõe é uma guinada do centro para a margem. Esse é o novo lugar a partir do qual a Igreja vai ter de falar, de ouvir. Ele quer, como já disse Frei Beto, que a gente pense com os pés, não com a cabeça."

E "pensar com os pés" remete ao ide de Cristo, que, no Evangelho, envia seus discípulos para anunciar os valores de um reino de justiça. "Uma Igreja para os pobres não trabalha para que eles tenham alguma coisa, ela caracteriza o mundo a partir do horizonte dos pobres. Trata-se de pensar uma sociedade em que as pessoas se sintam dignas, livres", afirma Antonio Manzatto, professor de teologia da PUC-SP.

Objetivo. Não ver a Igreja confundida com uma "ONG caridosa" é uma das preocupações de Francisco. Para o papa, não se pode perder de vista nunca o aspecto religioso. Inclusive, suas críticas à Teologia da Libertação recaíram sobre a ideologização marxista que o movimento tomou. Para Francisco, ajudar o pobre é também levá-lo a Deus.

No livro que escreveu com o rabino argentino Abraham Skorka, quando ainda era arcebispo de Buenos Aires (Sobre o Céu e a Terra, Editora Paralela), o papa disse: "Algumas comunidades religiosas correm o risco de agir inconscientemente como uma ONG. Não é só uma questão de fazer isso e aquilo para socorrer o próximo. Como você reza? Como ajuda sua comunidade para que ingresse na experiência de Deus? Essas são as perguntas-chave."

Mesmo que consiga evitar que sua "Igreja pobre para os pobres" seja associada ao marxismo, o posicionamento de Francisco terá reflexo político, de acordo com Altemeyer. "Ele inverteu a bússola, subverteu a lógica reinante."

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