Frankenstein está nos olhos de quem vê

O voto "Dilmasia" cresce rápido em Minas Gerais. A mistura da presidenciável petista com o governador tucano já é das duas mais populares entre os mineiros. Não demora muito, pipocarão teses sobre a incoerência eleitoral do brasileiro.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

Nos acostumamos a ouvir que o eleitor é inconsistente, volátil, prefere nomes a partidos. Virou um estereótipo que, de tão repetido, deixou de ser verificado. Convém submeter o discurso a uma prova de consistência.

Para ter palanques nos Estados, os presidenciáveis montam dobradinhas com candidatos a governador. Às vezes, com um oficialmente e com outro por fora. Com exceções pontuais, ficaram PT, PSB e PMDB de um lado; PSDB, PPS e DEM de outro.

O eleitor segue esses alinhamentos ou monta suas próprias chapas, misturando candidatos de blocos opostos? Há muitos votos Frankenstein?

Com ajuda do Ibope, descobrimos e classificamos as 35 dobradinhas mais populares do país. Na maioria dos 27 Estados, há só uma dominante. Em seis houve empate técnico. A maior dispersão é em Rondônia, onde o eleitorado se divide entre quatro chapas presidente-governador em proporções quase iguais.

A dobradinha campeã no país dá uma pista da consistência do voto dos brasileiros.

É a "Dilmampos": 60% dos pernambucanos declaram voto em Dilma Rousseff (PT) e em Eduardo Campos (PSB). Além de indicar seu desejo de continuidade nos governos federal e estadual, o eleitor em Pernambuco apoia uma coligação formal entre PT e PSB.

Em segundo lugar aparece outra aliança dos dois partidos no Nordeste: os "Dilmacid" são 50% dos cearenses. Representam o ponto de intersecção entre os 61% que declaram voto no candidato à reeleição Cid Gomes e os 73% que preferem Dilma no Ceará.

No terceiro lugar no ranking há um empate técnico entre uma aliança informal e uma chapa puro sangue. Os "Dilmaziz" são 44% do eleitorado amazonense, enquanto o voto "Dilmagner" é a opção de 43% dos baianos.

No Amazonas, o PT está coligado ao ex-ministro Alfredo Nascimento (PR). Mas o favorito Omar Aziz (PMN) pede votos para Dilma e divulga sua imagem ao lado da presidenciável petista. Fazem uma dupla extraconjugal de sucesso.

Na Bahia é o contrário, prevalece o formalismo. O petista Jaques Wagner é favorito à reeleição e fica com o voto de 2 em cada 3 eleitores de Dilma. Já o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) coopta apenas 10% do eleitorado da sua ex-colega de governo Lula.

A lista segue assim até o 15º lugar no ranking, onde aparece a primeira dobradinha com José Serra (PSDB). É em São Paulo, onde Serra não pode se queixar de Geraldo Alckmin. Ele divide 57% dos eleitores do candidato do seu partido ao governo.

O "Serralckmin" é o voto mais popular entre os paulistas, opção de 27% do eleitorado. A segunda chapa em popularidade é a "Dilmante", com 18%. É que Aloizio Mercadante (PT) só consegue seduzir 44% de quem vota em Dilma em São Paulo. Os "Dilmalckmin" são 13%. Das 35 chapas presidente-governador mais populares em todo o País, os eleitores estão alinhados com as coligações formais ou informais, sejam elas governistas ou oposicionistas, em 29 casos. A taxa de consistência do eleitor nos Estado chega a 83%, portanto.

Em apenas 6 Estados predomina um Frankenstein legítimo. No Rio Grande do Norte, os "Dilmalba" são 29% dos eleitores. Eles votam na petista Dilma para presidente e na candidata do DEM, Rosalba Ciarlini, a despeito das desavenças dos dois partidos.

Em Minas, o voto em Dilma e Hélio Costa (PMDB) está em baixa, mas ainda seduz 22% dos eleitores. A opção simultânea por supostos adversários, a petista Dilma e o tucano Antonio Anastasia, cresceu e reúne 20% dos mineiros.

Notícia é quando o homem morde o cachorro. Difícil resistir a criar uma regra a partir da exceção. Os dados mostram, porém, que o voto "Dilmasia" é um fenômeno basicamente mineiro, e não brasileiro. Frankenstein está nos olhos de quem vê.

 

 

 

 

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