Frases revelam 107 visões de mundo

Professor da USP pesquisou mensagens escritas que expõem as diferenças e semelhanças das diversas culturas

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

24 de maio de 2009 | 00h00

Ele percorreu meio mundo. Por 20 anos, o professor da USP Américo Pellegrini Filho passou por 107 países, pesquisando "grafitos" - todo tipo de mensagem, de simples bilhetes de quermesse a manifestações em lápides, banheiros, cartões de boas-festas, avisos contra fiado. O resultado está no recém-lançado livro Comunicação Popular Escrita, no qual reúne 14.014 mensagens e ajuda a desvendar os motivos de tanta vontade de escrever. Como resposta, Pellegrini recorre aos gregos: "É tudo catarse - irresistível vontade, em todos os povos, de mostrar o que está pensando."Iniciado em 1988 com pequenos registros do interior paulista, o livro acabou reunindo mensagens escritas em 42 línguas e 4 dialetos (catalão, gaélico, galego e napolitano), todas traduzidas para o português - após intermináveis buscas por profissionais capazes de decifrar o que estava escrito, por exemplo, numa placa na parede de um boteco em Sri Lanka ou num convite de casamento no Kuwait. "É um esforço para resgatar as coisas do povo, expressar o cotidiano das pessoas. O trabalho tem extensão inédita, o que percebi ao procurar obras de referência. Simplesmente não existem", conta o professor, da Escola de Comunicação e Artes. O garimpo de Pellegrini acabou por apontar semelhanças entre países de cultura e nível de desenvolvimento diferentes. "Bons exemplos são as placas de fiado, presentes na Inglaterra e no remoto interior do Brasil." Ele encontrou avisos contra a prática em 16 países, a maioria bem-humorados - descontada, é claro, a sobriedade inglesa, exemplificada numa mercearia cujo anúncio informa polidamente que "a recusa frequentemente ofende".Entre os temas pesquisados, há descobertas inusitadas, como a de que nas placas de caminhões de países como Egito e Turquia praticamente não se encontram frases jocosas, mas com temática religiosa. "Também vimos que, na Palestina, o mais comum é encontrar mensagens de amor e amizade, desejo de um local em guerra."O professor ainda analisou enunciados em túmulos de 40 países. "No Japão e na China, os costumes sóbrios aparecem também nas lápides, onde constam só nomes dos falecidos e data da morte", conta. "Mensagens sentimentais, para se tranquilizar diante da morte, são comuns em outros países."A pesquisa também expõe influências de regimes políticos - em incursões nos metrôs de Moscou e São Petersburgo (Rússia) e Pequim e Xangai (China) não encontrou sinais gráficos em paredes, banheiro, vagões. Também não achou, em diferentes jornais de China, Cuba, Mali, Tailândia, nenhum tipo de mensagem sentimental, mesmo em periódicos populares. "Em locais com regimes políticos opressores, as manifestações são muito mais contidas."Nas buscas, porém, também achou costumes relacionados, unicamente, à escrita - caso do Kakizome, no Japão, um tipo de mensagem escrita por crianças nos primeiros dias de janeiro, "com o que primeiro lhe vier à mente no ano". Quando soube do significado do costume, nova catarse: "Não é bonito? O que primeiro lhe veio à mente no ano deve ser, sim, escrito, colocado no papel. Isso justifica todo o meu trabalho." Comunicação Popular Escrita. Edusp, 696 páginas, R$ 70

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