Frente de esquerda pode dar novo papel a Lula

Presidente, que já articula com dirigentes de partidos a atuação conjunta das esquerdas, deve usar debate para voltar ao quadro político após 2010

Malu Delgado, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2010 | 00h00

Defendida e já previamente articulada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a união dos partidos de centro-esquerda numa frente para dar sustentação a um eventual governo de Dilma Rousseff (PT) esbarra nas pretensões eleitorais para 2014 e no poder que o PMDB poderá alcançar nos próximos quatro anos.

Juntos, PT, PSB, PCdoB e PDT poderão ter no próximo mandato, conforme projeções feitas pelos próprios partidos, cerca de 200 parlamentares na Câmara. Juntas, as futuras bancadas teriam o equivalente a quase 40% dos votos no Legislativo.

Lula tem dito aos presidentes de partido de centro-esquerda que, fora da Presidência da República, pretende atuar na união das siglas, formando uma rede política semelhante à Frente Ampla no Uruguai.

Essa é uma antiga ideia do presidente, cogitada desde a reeleição em 2006, mas que nunca prosperou. Segundo aliados, é a partir da liderança deste debate sobre a união das esquerdas no Brasil e na América Latina que Lula pretende se reinserir no cenário político logo no início do próximo governo.

"O presidente é um líder nato, e independentemente de ser presidente da República, terá forte influência e liderança entre todas as forças populares e democráticas de esquerda", afirma o ministro do Trabalho Carlos Lupi, presidente nacional do PDT.

Lula acredita que sem o mandato, mas desfrutando de alta popularidade, poderá viabilizar a organização dos partidos numa frente, o que seria uma experiência inédita no Brasil.

"Se a gente se reúne na eleição em torno de candidaturas e programas, por que não podemos discutir um programa, uma agenda de desenvolvimento sustentável e as reformas importantes que precisam ser operadas no país?", questiona o presidente nacional do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

O governador admite que já teve conversas com Lula sobre a proximidade das esquerdas. "O presidente, em conversas ao longo de muitos anos, sempre falou que não compreendia porque a gente não era um partido só. Hoje ele percebe a dificuldade, que não tem como. Mas têm fórmulas políticas comuns. Seria uma fórmula política que imitaria a Frente Ampla do Uruguai, um polo aglutinador de ideias", explica Eduardo Campos.

Para o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo, "a criação de uma frente é possível, mas o partido não está de acordo com a fusão de legendas". "O PCdoB tem um programa e ideias bem definidos", complementa Renato Rabelo.

Ponto Morto. A ambição de Lula, segundo o presidente do PCdoB, terá como obstáculo a inexistência de um mecanismo legal que possa viabilizar a chamada "federação de partidos". Rabelo lembra que isso já foi discutido quando o Congresso tentava votar uma reforma política, "mas ficou no ponto morto". "A Frente Ampla do Uruguai atua como partido. Nas eleições, funciona como um partido", explica o presidente do PCdoB.

A preocupação do presidente Lula, diz Renato Rabelo, é garantir mecanismos para que essa frente possa atuar também em conjunto nas eleições, tendo objetivos e candidaturas comuns.

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