Frevo contagia carnaval de Pernambuco

Josenaldo Felisberto da Silva, 24 anos, trompetista há oito, chegou cedo hoje ao Alto da Sé, em Olinda, para a concentração do bloco Enquanto isso na sala da justiça. Ele é um dos 48 músicos que, sob a batuta do maestro Climério Paulo de Oliveira, 64 anos, fazem o sucesso da orquestra que cumpre uma maratona no período de carnaval, tocando, sem parar, até seis horas em cada apresentação de rua - duas por dia. Uma das boas orquestras de frevo que sobem e descem as ladeiras da cidade, ela tem quatro tubas, 35 metais, dois taróis e três surdos. Seu maior orgulho é a de nunca ter perdido uma "guerra" de orquestra no encontro de outros blocos e troças no roteiro carnavalesco, sempre coalhado de gente. "No momento dessa guerra, no encontro, a gente ganha novo fôlego, é uma adrenalina extra, a gente se empolga", contou ele. Para agüentar a folia, os músicos treinaram duas horas por dia durante cinco dias da semana nos três meses que antecedem o carnaval para ter resistência física e de pulmão. "É muito bom quando a orquestra rival cai", disse ele. Cair, neste acaso, é ceder à superioridade da rival e parar de tocar até que o bloco tenha passado. Em cerca de três horas isso aconteceu com três delas no período da manhã. A "manha" da orquestra é confundir o outro. "Temos um bom instrumental, estamos preparados e quando o outro não desiste logo a gente atrapalha a concentração deles mudando o ritmo". Josenaldo nunca fez escola de música. Tudo que aprendeu foi o maestro Climério, que treina e ensina músicos na cidade de Pombos, no agreste. O cantor e compositor Alceu Valença, amante do carnaval e de todos os seus ritmos, atesta que o frevo é a maior escola de metais que existe. Como terra do frevo, Pernambuco é o Estado brasileiro onde mais existem e onde mais se vende metais. Alceu lança amanhã o Bloco Lírico do Pirata José, inspirado no frevo de bloco de sua autoria Pirata José, que sai à tarde da Rua de São Bento, onde ele comanda a folia durante o dia, na sua casa transformada em "Sobradão da Folia". Todas as tardes ele dá uma canja para os foliões, na varanda do sobrado, acompanhado dos músicos do Pirata José, com o compositor Cláudio Almeida à frente. As pessoas vibram e aplaudem. Hoje ele encerrou a rápida apresentação com uma brincadeira: "Espero que ninguém seja corno neste carnaval". Mais cansado que os componentes da orquestra nascida em Pombos, Alceu não pára no carnaval. Faz shows diários desde a semana pré-carnavalesca e ontem viajou à cidade de Cascavel, no Ceará, para fazer um show a convite do prefeito da cidade, que é músico e chegou a procurar a mãe do pernambucano para convence-lo a animar o carnaval da cidade. "Foi uma exceção, costumo passar o carnaval inteiro em Pernambuco", diz Alceu. Para ele, não fosse a satisfação do povo e a festa tão contagiante, ele diria que é um período de muito estresse. De Olinda, Alceu foi direto para o bairro popular de Casa Amarela, no Recife, onde iria se apresentar dentro o carnaval descentralizado do Recife, que promove shows de artistas nacionais em vários pontos da cidade. No Marco Zero, coração do Recife, Caetano Veloso, que pela primeira vez passa o carnaval em Pernambuco, iria participar de um desfile de maracatu de baque virado.

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