REUTERS/Adriano Machado
REUTERS/Adriano Machado

Fronteira de Brasil e Colômbia é espaço 'propício' para crime organizado

Informe da ONU e de órgão do país revela situação das populações que vivem no lado colombiano da fronteira com o Brasil

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

16 Fevereiro 2017 | 16h28

GENEBRA - Com uma fraca presença do Estado, a fronteira entre a Colômbia e o Brasil passou a ser um espaço "propício" para que grupos criminosos possam operar sua "economia de guerra". Isso é o que revela um estudo realizado pelo Ombudsman da Colômbia (Defensoria del Pueblo), em conjunto com o Alto Comissariado da ONU para Refugiados.  

O documento tem como meta examinar a situação humanitária das fronteiras da Colômbia, o país sul-americano com o maior número de refugiados e deslocados internos. Mas também constata como o abandono de determinadas áreas pelas autoridades abriu o caminho para grupos criminosos que continuam pressionando essas populações locais. 

"A fronteira com o Brasil é ideal para que grupos às margens da lei e o narcotráfico permitam evadir os contatos armados do governo (colombiano), sendo usados esses territórios como espaços propícios para manter sua economia de guerra mediante o tráfico de diferentes bens", indicou o documento da Defensoria del Pueblo de Colômbia, um órgão constitucional e autônomo de controle do Estado e que está vinculado ao Ministério Público. 

"Outro fator que influencia na mobilidade, além do caráter extrativista que tem a economia da região, são as Farc que continuam com sua presença, pelo que tem interesses em manter corredores de mobilidade, trânsito, reabastecimento, descanso para suas tropas e atividades rentistas nessa extensa zona que use as fronteiras do Brasil, Peru e a nossa (colombiana)", indicou. 

Para os autores do levantamento, não existe dúvida de que, por anos, os guerrilheiros das Farc optaram por usar a região para manter sua economia. "Nesse contexto, evidencia-se que as Farc tem priorizado o econômico sobre o político, estando presente no território para tirar proveito das rendas econômicas ilegais que se movem nesse cenário complexo de fronteira com escassa presença institucional", disse. 

Na pesquisa realizada com a população local, as conclusões apontam para o uso da terra para plantações de coca. "A maioria dos habitantes dessa região estratégica afirmam que, diante da existência de cultivos ilícitos, sobretudo do lado peruano da fronteira, são vários os jovens que entram no mercado de trabalho do narcotráfico realizando atividades relacionadas com a produção da pasta de base, insumos, distribuição e até a comercialização", aponta. 

Essa comercialização, segundo o informe, "se explica pela posição geoestratégica que ocupa o eixo do rio Putumayo, que serve de via de conexão para a Amazônia da Colômbia e a do Peru e Brasil, sendo este um ponto chave para distribuição e comercialização de produtos elaborados a partir da atividade do narcotráfico".

Sem controle. Em outro trecho, o documento também destaca que é "frequente a mobilidade (de pessoas) da comunidade de Yavaraté até São Gabriel, no Brasil". "Nessa comunidade se encontra nas ribeiras do rio Vaupés a passagem de trânsito de narcóticos ao Brasil sem qualquer controle", diz. 

Ainda sobre a ausência de controles, o documento aponta que é "importante ressaltar que em toda a fronteira com o Brasil existe um único ponto de controle migratório (na Colômbia), que é o posto fluvial do Rio Amazonas em Letícia, o qual dificulta o registro da mobilidade transfronteiriça".

A falta de controle também permite uma mobilidade de indígenas ao Brasil, principalmente por conta dos melhores serviços de saúde e educação que existem do lado brasileiro. Mas também permite que "comerciantes não indígenas" realizem um "comércio ilícito dada a permeabilidade da fronteira". 

"Além do narcotráfico, um dos problemas que mais afeta (a população de fronteira) na atualidade é a mineração ilegal", destaca o informe. Essa atividade divide comunidades indígenas, afeta o meio ambiente e gera impactos sociais, com a chegada de drogas, alcoolismo e prostituição ao longo do rio Putumayo. Nas regiões de fronteira, é a guerrilha das Farc que promove "extorsões a quem desenvolve essa atividade de forma ilegal". 

Em seus comentários ao lançar o informe, a ONU indicou que a "situação humanitária das áreas de fronteira da Colômbia continuam muito desafiadoras". No momento em que o mundo comemora um acordo de paz entre as Farc e o governo, a entidade das Nações Unidas revela que "apesar dos esforços feitos por instituições nacionais (colombianas) para ajudar vítimas do conflito armado, os problemas continuam, em especial no acesso a serviços públicos e prevenção de deslocamentos forçados, perda de propriedade e o recrutamento de crianças". 

"O informe também pede que as instituições do Estado sejam reforçadas nas áreas de fronteira para melhor garantir o respeito pelos direitos fundamentais e a luta contra a extrema pobreza", afirma o comunicado da ONU. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.