Fuga de internos acirra acusações dentro da Febem

Como sempre acontece após fugas e rebeliões, a evasão dos internos voltou a acirrar a discussão sobre os motivos que levam ao descontrole dentro da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem) de Franco da Rocha, e motivou nova troca de acusações entre representantes dos funcionários, direção e Ministério Público (MP). O presidente do Sindicato da instituição, Antonio Gilberto da Silva, defende que a fuga em massa foi motivada pela omissão da diretoria, que já tinha sido informada sobre a intenção dos jovens na segunda-feira."Eles já vinham enquadrando funcionários, e na sexta-feira, Baianinho (Edvaldo José de Araujo Lima) e Batoré (Fabio Paulino) passaram horas ao telefone articulando o esquema. Os funcionários avisaram os superiores, mas eles não fizeram nada." Silva também fez várias acusações contra o diretor da Unidade, José Thomaz Celidônio Gomes dos Reis, que, antes de assumir o posto, dirigiu a Penitenciária de Hortolândia, no interior do Estado. "Ele levou os vícios do sistema prisional para dentro da Febem", afirma.Segundo Silva, os internos estariam fazendo as próprias leis, se recusando a participar das aulas, exigindo o uso de roupas comuns em vez de uniformes e ameaçando funcionários que revistassem as correspondências. "O funcionário tem até que pagar pedágio para trabalhar. Se não trouxer um cigarro, por exemplo, ele é ameaçado pelos moleques", diz. "E fazem tudo com a autorização do diretor."Ele alega ainda que Batoré e Baianinho tinham assumido papel de liderança na Febem, dominando os outros internos. "Eles deveriam ser sindicalizados, pois na verdade eram eles que dirigiam o complexo. Até as transferências eram decididas por eles."Procurado pela reportagem, Celidônio não quis se manifestar. "Tenho ordens da Febem para não comentar esse tipo de declaração", justificou o diretor.O promotor da Infância e Juventude, Emilson Komono, acha que ainda é cedo para falar numa possível atuação de funcionários da unidade para facilitar a fuga dos internos, mas afirma que o comportamento de alguns monitores é decisiva na revolta dos adolescentes. "É preciso encontrar o ponto certo. É necessário haver disciplina, mas ser rigoroso não tem nada a ver com agredir os internos, como já está provado que acontece", disse.Komono acredita que somente o fechamento do complexo encerrará os problemas. "Aquilo é um verdadeiro presídio, e o ambiente repressivo, impede a recuperação e motiva mais revolta contra a sociedade", acredita. "Aquilo ali é uma bomba relógio. Sempre prestes a explodir."

Agencia Estado,

13 de abril de 2003 | 20h05

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