Reuters/Axel Schmidt
Testes de coronavírus em laboratório Reuters/Axel Schmidt

Fuga de talentos afeta saúde e inovação e põe em risco capacidade de recuperação econômica

Especialistas apontam impactos negativos sobre a qualidade de vida da população. Estadão revelou recorde de vistos concedidos a ‘profissionais excepcionais’ irem aos Estados Unidos

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2021 | 05h00

SÃO PAULO - A fuga de talentos brasileiros, constatada de forma mais intensa durante a pandemia de covid-19, afeta principalmente os setores de saúde, pesquisa, tecnologia e inovação, segundo relatam especialistas. Para eles, o cenário observado neste momento, além de prejudicar o combate ao coronavírus, também traz impactos negativos para a qualidade de vida da população e até põe em risco a capacidade de recuperação econômica do Brasil.

Conforme o Estadão divulgou nesta quarta-feira, 26, em 2020, os Estados Unidos registraram alta de 36% nos vistos de permanência concedidos a brasileiros em uma categoria específica, o EB2, voltada para os chamados "profissionais excepcionais". Foram 1.899 trabalhadores qualificados que deixaram o País, ao todo, o maior índice em pelo menos uma década.

Os Estados Unidos, no entanto, não são o único destino da mão de obra qualificada. Países da Europa, China e até os Emirados Árabes têm apostado em talentos estrangeiros para encontrar soluções de problemas, desenvolver novas tecnologias e, assim, acelerar a saída da crise econômica provocada pela covid-19.

“O mundo reconhece o Brasil como uma fonte de bons pesquisadores, não só pela nossa formação, mas pelas condições de trabalho aqui”, afirma a professora Luciana Lima, de Estratégias de Negócios e Pessoas, do Insper. “Essa mobilidade profissional vem aumentando em velocidade muito grande e vai provocar problemas logo mais.”

Segundo explica, investimentos em tecnologia e inovação tendem a aquecer a economia e, portanto, acelerar a recuperação dos países. “E isso não existe sem capital humano. Por esse motivo, há uma guerra por talentos no mundo, com profissionais valendo ouro”, diz Luciana. “Trabalhadores qualificados, capazes de realizar atividades complexas, geram produtividade.”

Presidente da Academia Brasileira de Ciência (ABC)  e professor do Instituto de Física da UFRJ, Luiz Davidovich relata testemunhar a evasão de talentos no próprio departamento. “Recentemente, quatro ou cinco pesquisadores passaram em concursos no exterior, um ex-aluno pediu licença para trabalhar nos Emirados Árabes, e jovens professores foram para Holanda, Austrália e Chile”, diz.

“São pessoas de boa formação que deveriam ser vistas como uma reserva no País. Mas, em vez de produzir aqui, vão liderar pesquisas lá fora.”

Para Davidovich, a saída de cientistas reflete diretamente na qualidade dos empregos e no dia a dia das pessoas. “Falar em pesquisa aplicada é falar sobre vacina ou medicamentos, por exemplo, mas também sobre desenvolvimento de novos materiais. Quem não faz fica sem acesso ou compra mais caro”, descreve. “ Sem pesquisa, o Brasil perde futuro, perde a possibilidade de protagonismo internacional e perde qualidade de vida da população.”

O cientista avalia, ainda, que a saída de mão de obra qualificada significa menos recursos. “Outros países sabem que, em tempos de crise, é preciso investir em conhecimento, porque é a melhor maneira de recuperar a economia. Hoje, a gente vê Estados Unidos e China brigando pela tecnologia 5G. É uma guerra sem tanques ou submarinos. E, aqui, estamos na contramão”, diz.  “No Brasil, um exemplo é a cultura do açaí na Amazônia, que traz U$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões) por ano e emprega 300 mil pessoas.” 

Pesquisadores são unânimes em avaliar que cortes em financiamento público de pesquisas têm estimulado cientistas a saírem do Brasil. Com redução de orçamento, também há universidades com risco de fechar. “Sem recurso, muitos não veem perspectiva de continuar os projetos nos seus laboratórios. Então a tendência é que, se tiver condição, mudar de país”, afirma Fernanda Sobral, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Ela também defende a realização de novos estudos para traçar os impactos econômicos e sociais da diáspora na ciência.

Segundo avalia Vanessa Cepellos, professora de Gestão de Pessoas da FGV-EAESP, a fuga de talentos estaria associada à “falta de perspectiva” e à procura de melhores condições de trabalho e remuneração. “Não é uma decisão que alguém toma do dia para a noite, então há muitos fatores que vão interferindo até o profissional decidir sair do Brasil”, afirma. “Geralmente são pessoas com alta qualificação e, o mais triste, que vão acabar deixando seus produtos finais naquele local.”

A professora da Unicamp Ana Maria Carneiro, que está à frente de pesquisas sobre migração, pondera que nem sempre a diáspora na ciência é ruim para o Brasil. “Depende muito se o profissional mantém algum vínculo ou não. A literatura mostra que, em vários países, esse movimento contribui para o desenvolvimento científico e tecnológico, com mais facilidades para remessas de recursos e até na internacionalização de empresas ou apoio para resolução de conflitos.”

Problema maior, diz a pesquisadora, é a hipótese de o talente romper os vínculos com o Brasil. “Grande parte dessas pessoas é proveniente de universidades públicas ou recebeu bolsas de pesquisa. Ou seja, o País perde todo o recurso que investiu naquela formação, além das competências específicas.”

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Fuga de talentos do Brasil aos EUA é a maior em 10 anos; saída de médicos tem 'boom'

Índice é o maior em uma década e permissão tem contemplado profissionais de saúde, que citam desgaste da pandemia e das condições de trabalho. 'País convida os bons profissionais a se retirarem', diz médico

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2021 | 10h00

O casal de médicos Raquel e Diego Laurentino Lima, de 32 e 36 anos, estava na linha de frente do combate à covid-19 no País. Emergencista, ela cuidou de dezenas de pacientes, 12 horas por dia no hospital, quase sem descanso. Já ele, cirurgião, conduziu estudos sobre a doença. Em agosto, Lima aproveitou uma oferta de trabalho e os dois resolveram que era hora de ir morar em Nova York: "A pandemia deixou claro que o Brasil, por tudo que está passando, convida os bons profissionais a se retirarem".

Em meio à maior crise sanitária do século, o Brasil tem testemunhado um boom na saída de profissionais de saúde para os Estados Unidos. Assim como o casal Lima, a maioria vai em busca de valorização profissional, melhor remuneração e investimentos em pesquisas. É o que indicam relatos de outros trabalhadores da área e dados migratórios do Departamento de Estado americano.

Segundo o relatório fiscal de 2020, os Estados Unidos registraram alta de 36% nos vistos de permanência concedidos a brasileiros em uma categoria específica, o EB2, voltada para os chamados "profissionais excepcionais". Especialistas explicam que esse é o tipo mais comum requisitado por médicos, enfermeiros ou fisioterapeutas – mas a categoria também inclui outras áreas deficitárias nos Estados Unidos, como aviação ou engenharia.

Em números absolutos, 1.899 "profissionais excepcionais" deixaram o País de forma definitiva no ano passado, o maior índice em pelo menos uma década. A estatística inclui tanto novos vistos concedidos quanto ajustes de status – ou seja, casos de pessoas que entraram no país com autorização de outra natureza, mas conseguiram trocar depois. 

Esse aumento contrasta com a queda de 48%, praticamente um corte pela metade, nas emissões de vistos, em geral, pelo governo americano em 2020. Por causa da pandemia, os Estados Unidos suspenderam algumas atividades nos consulados, o que interrompeu parte dos processos.

"Só consegui embarcar porque, como minhas pesquisas são relacionadas à covid, fui considerado prioridade", relata Lima, que deu entrada para obter o EB2. Segundo conta, ele já vinha pensando em morar fora e até fez estágios no Japão e Estados Unidos antes. "Tive ainda mais certeza da decisão quando vi a forma que o Brasil enfrentou a pandemia. Somos um dos únicos países do mundo a ficar insistindo em coisas sem respaldo científico, como cloroquina."

Para Lima, também pesaram as condições de trabalho e qualidade de vida. "No Brasil, o médico pode até ganhar dinheiro, mas não tem tempo de aproveitar. Aqui, os contratos são de U$ 200 mil, U$ 300 mil (R$ 1 milhão a R$ 1,6 milhão) por ano e o ambiente é muito melhor", afirma. "Isso tem atraído tantos colegas que, entre os brasileiros, a gente brinca que 'virou modinha' vir para os Estados Unidos".

Limite

Em paralelo aos relatórios oficiais, a assessoria D4U USA, especializada em imigração legal, relata ter observado, no ano passado, alta de 30% considerando apenas profissionais de saúde à procura de visto de residência nos Estados Unidos. "O volume aumentou bastante, mas não só pela pandemia. É a situação do Brasil, como um todo", diz o CEO da empresa, Wagner Pontes. "Quando a gente senta com o cliente, a maioria fala que chegou ao limite."

Pontes explica que a tendência, apesar de mais acentuada agora, já vinha sendo percebida desde o fim de 2016, quando o governo americano flexibilizou regras e encurtou o processo para o EB2. Antes, o visto levava cerca de 36 meses para sair. Hoje, pode ser obtido em menos de um ano. "Em termos de legislação, não houve mudanças na pandemia: o que mudou foi a percepção em relação aos profissionais de saúde, que passaram a ter êxito maior nesse pleito", afirma.

O especialista também analisa que esse aumento deve ficar ainda mais claro nos relatórios oficiais seguintes. "A partir de março de 2020, praticamente não houve entrevista consular, então muitos processos ficaram amarrados", diz. "Existe uma demanda represada que deve entrar nos próximos anos fiscais. Só aqui no escritório, são centenas."

É o caso da dentista Mariana Antunes, de 38 anos, que atua no Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, aplicou o visto no ano passado e aguarda alguns trâmites para se mudar de vez. "Passei um ano nos Estados Unidos, em 2018, e o que mais me deixou feliz foi a segurança de poder caminhar na rua sem medo", descreve.

Segundo relata, a escolha dela é anterior à pandemia, mas o cenário atual tem feito outros colegas tomarem a mesma decisão. "A situação que a gente vê no Brasil é complicada, principalmente na área da saúde. Os profissionais estão cansados, muitos à base de remédio. Ninguém consegue ver uma saída rápida."

Procura

Para exercer a profissão nos Estados Unidos, o imigrante também precisa validar o diploma e cumprir uma série de etapas burocráticas. Um dos empecilhos é o alto custo de todo o processo, com provas que custam U$ 900 (R$ 4,7 mil), cada uma. Não raro, o investimento ultrapassa o patamar de R$ 100 mil.

Com experiência em UTI e centro cirúrgico, a enfermeira Natália Marques, de 36 anos, mora há cinco anos nos Estados Unidos, com o marido e o filho. "Estou no processo de recebimento do visto de trabalho e já tenho licença para atuar em Nova York", afirma. 

Natália avalia, no entanto, que a espera vale a pena. "No Brasil, cheguei a trabalhar 36 horas seguidas e, muitas vezes, o salário pago não é o justo", diz. "Como tenho experiência em setores com muita demanda nos Estados Unidos, a procura é muito grande. Só no Linkedin, recebo umas 30 notificações diárias."

Já a fisioterapeuta Elisangela Ishida fez carreira em clínicas do interior de São Paulo, mas trocou de país em 2019. "Apesar de eu ter conseguido uma ascensão e até ser remunerada acima da média, é perceptível que a profissão não é tão valorizada no Brasil", afirma. "Nos Estados Unidos, a pessoa consegue validar o diploma em um dia e está empregada no outro."

Três perguntas para… César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira

01. Dados migratórios indicam crescimento da evasão de profissionais de saúde para os Estados Unidos, em meio à pandemia de coronavírus. Quais os principais impactos para o Brasil?

É uma enorme preocupação. Com certeza, estamos falando de profissionais da mais alta qualidade e extremamente valiosos principalmente neste momento terrível. A covid não se encerra com a alta hospitalar. Há muitas sequelas, às vezes de longo prazo, que precisam de programas de fisioterapia, de fonoaudiologia, e ainda assim estamos perdendo esses profissionais para o exterior. A pergunta que temos de fazer é: por quê? A pandemia escancarou as péssimas condições de trabalho no Brasil, principalmente em relação a questões estruturais, de salário e de reconhecimento do empregador. Nem digo pela população, que os trata como heróis. Mas esse reconhecimento não se estende aos gestores de saúde, públicos ou privados, com ilhas de exceção.

02. A escassez de profissionais de saúde no Brasil já é um dos problemas que afeta, por exemplo, a expansão de leitos de UTI. Há outras áreas no enfrentamento à covid diretamente impactadas por esse cenário?

Você trouxe o exemplo mais emblemático. Toda hora, se vê notícia de algum lugar que vai aumentar os leitos de UTI, como se isso fosse possível da noite para o dia. Precisa de recurso humano, de médicos intensivistas, especializados. São, no mínimo, três anos de formação em um programa regular de residência médica. Em situação de excepcionalidade, é claro que você pode pegar um profissional da área de urgência, por exemplo, e adaptar. Mas isso não vai funcionar com qualquer especialidade.

03. Quais estratégias devem ser adotadas para garantir a segurança dos quadros profissionais no Brasil?

Acho que vamos ter de fazer uma reformulação geral. O empregador precisa valorizar seus funcionários: o médico, o fisioterapeuta, o maqueiro, a pessoa da limpeza, a escriturária, a assistente social. A saúde é subfinanciada e mal gerenciada. O SUS é uma conquista da população brasileira, é fantástico, mas temos de tratá-lo com o cuidado que ele merece. Tem de ter plano de carreira, como no Judiciário. 

A situação da pandemia não é boa no Brasil. Os médicos estão muito desalentados, também porque parte da população não está entendendo a gravidade. Acabar com o negacionismo tem muita importância. Os profissionais estão preocupados com o excesso de trabalho e com a possibilidade de a população não se manter aderente às medidas necessárias. Causa um certo desânimo. O médico chega em casa, vai assistir ao jornal e percebe que o comportamento das pessoas não está alinhado com o que ele vê nas UTIs dos hospitais.

Tipos de greencard por trabalho

  • EB1: Normalmente, é pleiteado por “trabalhadores extraordinários”. No grupo estão profissionais de notoriedade, com reconhecimento nacional ou internacional, como escritores de best-seller, pesquisadores premiados ou palestrantes de sucesso.
  • EB2: Visto de residência permanente destinado a profissionais “excepcionais”. Na categoria de segunda prioridade, entram trabalhadores com experiência “acima da média” ou de áreas deficitárias nos Estados Unidos.
  • EB3: Voltado para profissionais com menos experiência. O processo depende de um empregador americano que aceite contratá-lo.
  • EB4: Categoria que atende imigrantes com enfoque em trabalhos religiosos.
  • EB5: Voltado para investidores.

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