Filipe Araujo/AE-15/3/2006
Filipe Araujo/AE-15/3/2006

Funerária de sobrinho de Alckmin levava merenda, diz ex-funcionário

Empresário de Pindamonhangaba é filho de Paulão, suspeito de chefiar fraude em licitações e pagamento de propina a prefeitos

Fabio Leite, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2011 | 00h00

Ex-funcionário da Velório e Funerária Pindamonhangaba, empresa de Lucas César Ribeiro, que administra o serviço na cidade, o agente funerário Vicente Ricardo de Jesus, de 52 anos, relatou ao Jornal da Tarde que, no período em que trabalhou no local, fazia transporte de merenda escolar para a Verdurama durante o dia com o mesmo veículo que transportava cadáveres à noite. A prefeitura classifica o fato de "mentira". Lucas é filho do lobista Paulo César Ribeiro, cunhado do governador Geraldo Alckmin.

A Verdurama é investigada pelo Ministério Público Estadual por suspeita de fraude em licitações e pagamento de propina a prefeitos paulistas e outros três Estados. Paulo César, conhecido como Paulão, é suspeito de comandar o esquema no Vale do Paraíba, onde fica Pindamonhangaba, cidade natal do tucano. Ambos negam as acusações.

Em depoimento à promotoria no fim de 2010, o ex-secretário de Finanças de Pindamonhangaba Silvio Serrano disse que a empresa do filho de Ribeiro "fazia transporte de gêneros alimentícios para a Verdurama".

Segundo o Ministério Público, Serrano foi indicado por Paulão ao prefeito João Ribeiro (PPS), apadrinhado de Alckmin que está no segundo mandato - a vice, Myriam Alckmin, é sobrinha do governador. Serrano foi demitido em outubro, após a denúncia vir à tona.

Além da funerária, Lucas também é dono de uma microempresa de transportes, a Lucas CR Transporte e Logística, segundo dados da Junta Comercial. O endereço informado é o mesmo onde outro filho de Paulão, Thiago, declara residência.

Segundo o agente funerário, o transporte da merenda era feito com os carros da funerária, uma caminhonete e uma van. "Todo mundo sabia. A Secretaria de Saúde, e, claro, a prefeitura também sabia. É porque transporta aquelas panelas meio grandes, aí é fogo, né?", disse.

Ele deixou a empresa em 2008 e hoje trabalha em outra funerária na cidade. "Isso é fácil de levantar. É só ligar na Verdurama e pedir as notas, porque a gente tirava as notas, a quilometragem, a escola, quantidade de merenda que entregava. Tudo por escrito."

Verdurama. Por meio da assessoria de imprensa, a empresa alegou que "desconhece" o fato, mas admitiu ter contratado a empresa CR Transportes para a merenda. Afirmou, ainda, que "lamenta estar sendo usada como saco de pancada numa disputa política em Pindamonhangaba da qual não faz parte".

A reportagem também tentou contato telefônico com Lucas na funerária e em sua residência, em Pindamonhangaba, mas não o localizou. Gilberto Menin, advogado de Paulão no caso, disse que só tem procuração para defender o pai de Lucas e não se manifestaria sobre o assunto porque o inquérito corre sob segredo de Justiça. "O que posso dizer é que o Lucas não é alvo de nenhum inquérito e o inquérito do Paulo é sigiloso. Inclusive, o MP já noticiou que vai averiguar por que houve vazamento à imprensa."

Pela assessoria de imprensa, a Prefeitura de Pindamonhangaba negou o relato do agente funerário. "Isso é mentira. Nunca houve transporte de merenda escolar em carro funerário. Isso é boato que surgiu desde 2006. A gente foi atrás e já desmentiu. Houve confusão porque o carro que transporta a merenda é do mesmo modelo e da mesma cor do carro funerário", afirmou.

PARA ENTENDER

A funerária de Lucas Ribeiro - filho do lobista Paulo César Ribeiro, cunhado do governador Geraldo Alckmin - mantém, ao menos há cinco anos, contrato com a Prefeitura de Pindamonhangaba.

Criada em 2003, a Velório e Funerária Pindamonhangaba venceu a licitação para operar o serviço funerário em 2005, início da primeira gestão do prefeito João Ribeiro (PPS), aliado de Alckmin.

Segundo o Diário Oficial, três empresas participaram da disputa, mas só a de Lucas foi habilitada. Venceu com a oferta de R$ 160 por velório. Em 2006, a prefeitura elevou o valor unitário para R$ 235, para "restabelecer equilíbrio econômico-financeiro".

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