Funk é tema de conclusão de curso na PUC do Rio

Imagens feitas por dois alunos podem ainda virar livro

Felipe Werneck, RIO, O Estadao de S.Paulo

14 Agosto 2009 | 00h00

Julia Haiad e André Castro têm 22 anos, moram na zona sul carioca, estudaram no tradicional Colégio Santo Inácio e se formaram na PUC. Até a escolha de um tema para o trabalho de conclusão do curso de Comunicação Visual, eles nunca haviam pisado em um baile funk. Depois, acabaram ficando amigos do DJ Sany Pitbull e da MC Deyse Loura, entre outros, e prepararam um ensaio gráfico de cem páginas sobre "a cara do funk" que recebeu nota dez. Agora, o projeto "Funk - Que Batida É Essa" pode virar livro. A Editora Aeroplano está interessada, mas eles ainda buscam patrocínio. André e Julia escolheram três técnicas para "falar" do funk: o estêncil, associado ao grafite, foi usado para mostrar os bailes, o funk mais difundido; a monotipia, técnica mais fluida, imprecisa, que cria borrões, para tratar do funk de temática sexual (a mulher melancia é representada como "ícone" da galera); e o carimbo, mais associado a protestos, para o funk que aborda a violência e o tráfico. A ideia era "proporcionar um passeio visual com ritmo e movimento". As transições entre as diferentes técnicas de ilustração são sutis, sem uma separação convencional por capítulos. Numa pequena entrevista, Sany Pitbull, também desenhado, comenta as diferenças entre bailes realizados em favelas e na zona sul. Para ele, na parte da cidade onde moram os autores o funk "se consolidou um pouco maquiado, botaram ele bonitinho, com uma roupinha, e ele entrou na festa de grã-fino". "Antes, se me chamassem para ir a um baile, talvez eu ficasse com um pé atrás", reconhece Julia. Depois da escolha do funk como tema, amigos estranharam. "Alguns diziam: ?Como vocês vão falar sobre funk??, ?Ih, mauricinho e patricinha não sabem nada?. Mas depois todo mundo se amarrou no projeto." Segundo ela, foram quatro meses de pesquisa antes do primeiro baile. "Eu tinha interesse na questão social do movimento, mas a curiosidade de ir aos bailes só veio com o projeto", diz André. Ele conta que ouvia funk em festas da zona sul, mas depois descobriu que estava sempre atrasado. "Nos bailes em favelas, eu não conhecia quase nenhuma música. Lá, eles estão sempre um passo à frente. As que fazem sucesso aqui (na zona sul) primeiro fazem sucesso lá." A apresentação do projeto foi escrita pela professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) Martha Abreu. "Ritmo condenado, dança indecente, local perigoso e violento, música pobre importada dos EUA, o funk possui muitos críticos e opositores, decididamente. As opiniões contrárias lembram muito os juízos que, no século 19, as autoridades policiais e os jornais faziam sobre os batuques africanos: locais do crime, centros do vício e da perdição", analisa. "Como os batuques, o funk tornou-se carioca e brasileiro; uma quase unanimidade entre os jovens da cidade do Rio." Para ela, as imagens de Julia e André são "impactantes". A professora Adriana Facina, doutora em Antropologia Social, também escreveu um ensaio. Os dois incluíram um agradecimento especial ao ilustrador e amigo Amador Perez pelo "olhar aguçado que apontou belas imagens que nos passariam despercebidas". Julia e André são contra a proibição de muitos bailes, hoje imposta pela Polícia Militar.

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