Furto choca cidade e revolta especialistas

Marchand acha que ladrões pedirão resgate ao Masp

Antônio Gonçalves Filho, Paulo Darcie e Andrei Neto, O Estadao de S.Paulo

21 de dezembro de 2007 | 00h00

O furto das telas do Museu de Arte de São Paulo (Masp) numa fulminante ação de 3 minutos em plena Avenida Paulista chocou a cidade e revoltou especialistas, críticos de arte e autoridades no País e no exterior .O governador José Serra lamentou o furto. Ele comparou a ação dos ladrões a uma obra cinematográfica. "Parece coisa de filme", afirmou. Serra disse ainda que as telas não são fáceis de serem escondidas e confia na Polícia Civil para recuperá-las. "Houve um furto de obras da Biblioteca Municipal que a polícia conseguiu descobrir", disse, referindo-se ao furto de mais de cem gravuras da maior biblioteca municipal de São Paulo, a Mário de Andrade, em setembro do ano passado.Ele prometeu colocar a Polícia Civil para trabalhar "firmemente" no caso. "Nossa polícia é muito competente e espero que ela tenha sorte nessa busca", disse o governador. Apesar da confiança, Serra não escondeu sua preocupação. "Espero que as obras tenham seguro. Devem ter." Infelizmente, segundo o curador do museu, Teixeira Coelho, elas não têm seguro específico. "É um absurdo que o maior museu da América Latina seja arrombado com um pé-de-cabra e um macaco hidráulico", reagiu o conselheiro do Projeto Portinari e diretor da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro, Jones Bergamin. Foi o marchand quem avaliou a tela de Picasso em US$ 50 milhões e a de Portinari em US$ 5,5 milhões. Bergamin acredita que as obras tenham sido furtadas por profissionais interessados em pedir resgate ao museu e não crê que elas tenham como destino a casa de algum colecionador excêntrico. "É a hipótese mais provável e também a mais perigosa, porque é contra a lei pagar seqüestradores de arte. Além disso, eles devem saber que o Masp não tem dinheiro nem para pagar a conta de luz, o que coloca as obras em risco."O crítico Tadeu Chiarelli, ex-diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), disse estar aturdido com a recente onda de roubos de obras de arte no Brasil. Ele lamentou a ausência de uma política que reconheça a importância dos acervos dos museus. Chiarelli, que já escreveu sobre Portinari em um de seus livros, lembrou que o Picasso do Masp não é o primeiro a ser roubado de uma coleção pública. Sobre Portinari, disse que a tela pertence ao momento mais importante da carreira do pintor. "É a sua declaração modernista", resumiu.O roubo dos quadros de Picasso e Portinari em São Paulo repercutiu na França, onde se situa um dos maiores acervos do pintor espanhol do mundo. Na imprensa e no mundo da arte, o descaminho das telas no Brasil surpreendeu e despertou lamentos. Marie-Noëlle Delorme, estudiosa de Picasso e autora de ensaios sobre o pintor, evitou tecer comentários sobre a obra furtada, mas lamentou que outro dos grandes museus do mundo tenha sido alvo da ação de quadrilhas - em 2007, duas telas e um desenho do pintor foram roubados em Paris . "É sempre muito grave saber que essas ações estão se disseminando", disse. Ex-diretor do Museu Nacional Picasso de Paris, Gérard Régnier, autor de Obras-primas do Museu Picasso, opinou no mesmo sentido. Sem avaliar a obra furtada, o especialista manifestou sua contrariedade com a ação dos criminosos. Questionado sobre a ação de eventuais grupos especializados no roubo de quadros do espanhol - em crimes cometidos no interior do país nesta década, houve "encomenda" de especialistas --Régnier foi evasivo. "Prefiro não me manifestar sobre isso." Outra expert, Marie-Laure Bernadac, que há 15 anos exercia o cargo de conservadora do Museu Nacional Picasso - responsável pela manutenção e pela segurança das obras -, disse que O Retrato de Suzane Bloch, a tela furtada em São Paulo, precisa ser localizada logo, em razão de seu alto valor para o conjunto da obra do artista. "É um quadro realmente importante de Picasso", afirmou.

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