Futebol e eleição presidencial

Há alguns dias tivemos a chance de ver uma grande manifestação da crença em mágica aplicada ao futebol. Quando a Alemanha derrotou a Austrália por 4 a 0 os analistas de futebol foram unânimes em afirmar que a Alemanha tinha se colocado como favorita ao título. O grande motivo disso seria a juventude do time, uma das menores médias de idade de todas as seleções que foram para a África do Sul. Os mesmos comentaristas nos alertavam dizendo que o Brasil estava na situação oposta: uma média de idade elevada.

ALBERTO ALMEIDA, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

O passe de mágica da análise é a média de idade dos jogadores da Alemanha. Como eles são jovens, então eles derrotaram a Austrália. Porém, na sexta a mesma juventude foi derrotada pela Sérvia. O grande problema deste tipo de comentário é a crença em mágica.

O mesmo acontece quando se fala na relação entre Copa do Mundo e política. Há aqueles que acreditam na mágica de que, se o Brasil for o campeão, então o candidato do governo será beneficiado e acabará vencendo a eleição. Há a crença na mágica oposta, se o Brasil for derrotado, então a oposição será a grande beneficiária. Há ainda a fé em outra mágica, a de que durante a Copa a campanha fica paralisada e a intenção de voto não muda.

Em 1994 o Brasil foi campeão e o candidato do governo venceu. O problema é que no mesmo ano houve o Plano Real, a inflação caiu, o poder de compra da população aumentou e as pessoas ficaram satisfeitas com o governo por conta disso. Assim, uma eleição somente não é suficiente para diferenciar o que causou a vitória do governo, se a vitória na Copa ou o abrupto aumento do bem-estar material.

Em 1998 o Brasil foi derrotado por 3 a 0 pela França na final, mas o governo venceu novamente. A derrota na Copa não causou a derrota do governo. Em 2002 o Brasil foi campeão e o governo perdeu. A vitória do Brasil não causou a vitória de Serra, que teve apenas 20,7% de votos no primeiro turno. Em 2006 aconteceu o oposto, o Brasil perdeu, mas o governo ganhou a eleição.

Em suma, tomando-se quatro eleições em três delas não houve mágica, e na única na qual a mágica poderia ter ocorrido, ela se confunde com uma mágica mais consistente, a da melhoria do poder de compra causada pelo Plano Real. Aliás, a intenção de voto de FHC aumentou depois da queda da inflação e não depois da final da Copa.

A crença mágica na não variação da intenção de voto durante a Copa é negada de forma cabal por uma eleição: 2002. Naquele ano, Ciro Gomes subiu de maneira incontrolável justamente nos 30 dias da Copa do Mundo. Isso é suficiente para mostrar que o eleitor brasileiro tem capacidade suficiente tanto para acompanhar a Copa, quanto para seguir o debate eleitoral. Ciro cresceu porque ocupou horários partidários que ocorriam justamente nos mesmos dias da Copa. Não é possível dizer o que vai acontecer agora. Que o Brasil vença a Copa, acho que é o desejo de mais de 90% dos brasileiros. Qualquer brasileiro pode desejar isso sabendo que não haverá impacto algum no resultado eleitoral. Quanto a crescer ou cair durante a Copa, vamos esperar para ver, pode acontecer.

É AUTOR DE "A CABEÇA DO BRASILEIRO"

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