Futuro dos adolescentes está ameaçado, diz Unicef

A falta de políticas públicas integradas para a juventude no Brasil tem criado um contra-senso: o País que tem avançado nos últimos anos na redução da mortalidade infantil mantém altas taxas de mortalidade entre adolescentes.Ou seja, se tudo continuar como está, as crianças que estão hoje sendo salvas ao nascer têm chances cada vez maiores de morrer quando entrarem na adolescência ou de se tornarem no futuro cidadãos de "segunda classe", com dificuldades de entrar no mercado de trabalho e candidatos a bolsas de assistência social do governo.Segundo relatório apresentado nesta quarta-feira pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de um terço dos adolescentes brasileiros está com o futuro comprometido por níveis de escolaridade e renda. São cerca de 8 milhões - entre um total de 21,2 milhões - de garotos e garotas com idades entre 12 e 18 anos incompletos que pertencem a famílias com renda per capita menor que meio salário mínimo e têm pelo menos três anos de defasagem em relação à escolaridade correspondente à sua faixa etária.A exclusão social desses adolescentes se expressa de diferentes maneiras. A principal é o analfabetismo, que atinge 1,3 milhão de garotos. Depois vêm o abandono escolar - 3,3 milhões não freqüentam a escola - e o trabalho infantil - 1,9 milhão entre 10 e 14 anos trabalham. Na faixa dos 15 aos 17 anos, são 3,2 milhões. A maioria realiza trabalhos precários e mal remunerados e cumpre jornadas excessivas, que dificultam a ida à escola, o lazer, a cultura."Apesar dos índices elevados de acesso ao ensino fundamental, continuam os fatores de exclusão social, ligados à baixa qualidade do ensino, diferenças regionais, de raça e gênero e violação de direitos", diz o oficial de projetos do Unicef Sílvio Kaloustian, que classifica como "alarmantes" o baixo índice de matrículas no ensino médio de adolescentes entre 15 e 17 anos e a porcentagem de garotos de 14 e 15 anos que concluíram ensino fundamental.O relatório do Unicef destaca que as políticas públicas têm dedicado pouca atenção aos adolescentes. Com isso, boa parte deles vira alvo fácil para violência, doenças sexualmente transmissíveis e abuso de drogas. A gravidez precoce é outro problema e reforça o ciclo de exclusão: baixa renda, escolaridade insuficiente, inserção precoce no mercado de trabalho.Para reverter os problemas, o fundo sugere algumas ações. Entre elas, desenvolver políticas intersetoriais com recursos das três esferas, elevar escolaridade, garantir renda mínima e possibilitar acesso à educação profissional, saúde, assistência social, esporte, cultura e lazer.Extinguir a obrigatoriedade do serviço militar, oferecendo opção do serviço civil voluntário, e fornecer bolsa escola para alunos do ensino médio são outras propostas.A representante do Unicef no País, Reiko Niimi, explica que, em relação ao relatório 2001, o Brasil passou de 89 para 92 - entre 193 - no ranking decrescente de mortalidade de menores de cinco anos, mas ainda pode avançar mais. Ela destaca as boas iniciativas espalhadas pelo País capitaneadas pelos próprios adolescentes.O Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua e a Casa Grande, de Nova Olinda (CE), por exemplo, constam no relatório mundial do Unicef. Em meio às lacunas de serviços públicos, esses e outros programas acabam fazendo a diferença na vida de adolescentes.O trainee Robson Andrade dos Santos, por exemplo, passa o dia no Arrastão Movimento de Promoção Humana, no Campo Limpo, zona sul paulistana. Acostumado à violência desde criança, ele abandonou a oitava série e diz que passou um bom tempo pensando em "fazer coisa errada". Foi salvo por "Deus e pelos conselhos do pessoal do Arrastão" e mora com os tios e os primos no Parque Pinheiros, em Taboão da Serra. Seu irmão saiu há pouco tempo da Febem e um de seus primos está preso por roubo."Oportunidade para roubar não faltou nem falta. A situação do jovem tá difícil, não tem serviço, as empresas pedem segundo grau e muitos não têm. Mas o que eu mais quero é arrumar um emprego." Por enquanto, ele recebe bolsa de R$ 100,00 do Arrastão. No ano que vem, quer voltar a estudar e sonha em comprar casa, celular e um Golf.

Agencia Estado,

11 de dezembro de 2002 | 22h25

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