Gaguim ajudou lobista no Congresso

Apresentado pelo governador do TO a senadores, Manduca teria desviado R$ 615 milhões , diz PFComitiva. Governador viajou à China em abril levando lobista acusado de integrar quadrilha

Fausto Macedo e Bruno Tavares, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2010 | 00h00

Monitoramento da Polícia Federal e do Ministério Público Estadual revela que o lobista de organização criminosa que teria desviado R$ 615 milhões em fraudes a processos de licitação fez articulações dentro do Congresso e se aproximou de senadores. A meta era obter apoio político para aprovação de emendas destinadas à liberação de recursos públicos para regiões onde o grupo mantinha negócios.

Levado pelas mãos do governador do Tocantins, Carlos Henrique Gaguim (PMDB), que é seu amigo e citado em relatório da promotoria como integrante da organização criminosa, Maurício Manduca conheceu os gabinetes de pelo menos dois senadores, Romero Jucá (PMDB-RR) e João Ribeiro (PR-TO).

O dossiê do Ministério Público menciona os dois senadores para realçar os movimentos do lobista no Legislativo, sempre acompanhado de seu padrinho político e aliado, o governador Gaguim, candidato à reeleição com apoio do presidente Lula.

Não há indicativos no relatório que a promotoria enviou à Justiça de que Jucá e Ribeiro tenham se envolvido em atos irregulares ou tenham encaminhado qualquer solicitação do lobista, preso há oito dias.

Mas os promotores dedicaram no relatório da investigação um capítulo às "articulações políticas" do grupo. À página 378 escreveram. "É vital ao desempenho das funções criminosas de Emerson (outro lobista) e Manduca a manutenção de uma rede de contatos e relacionamentos políticos que podem ser acionados sempre que necessário aos negócios da organização".

Diálogo telefônico interceptado em 18 de março, às 16h16, pega Manduca tratando de pagamentos de propinas "a secretários municipais e servidores públicos de Hortolândia", interior de São Paulo. Seu interlocutor é José Carlos Cepera, dono de um grupo de seis empresas que se revezavam nos certames licitatórios em pelo 11 prefeituras de São Paulo e no Tocantins.

Manduca e Cepera discutem também sobre fraudes em contratos firmados com o governo do Tocantins. Manduca diz que fez contatos com Gaguim e que teria sido apresentado ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), pelo senador Romero Jucá. "Eles acharam a ata muito boa", diz Manduca. A promotoria sustenta que a ata foi dirigida pelo lobista e embasou contratação de 5.500 funcionários sem concurso público.

Em outro diálogo, captado dia 19 de março, às 17h35, o lobista relata a Cepera que recebeu o senador João Ribeiro em sua casa, na cidade de Campinas, para um almoço. Ele conta que à noite levaria o senador ao Bomboa, boate em São Paulo, e no dia seguinte se deslocariam até o Santuário de Aparecida. O dossiê retrata que os dois interlocutores "dão risada e se divertem". E falam "da família do senador".

À página 381, o relatório transcreve diálogo do senador com o deputado estadual de Minas Chico Uejo (PSB), do dia 19 de março às 14h56. Cunhado de Manduca, Uejo é citado pelo Ministério Público como aliado do grupo.

Na conversa, Ribeiro "diz que está na casa de Manduca em Campinas, na mordomia... Manduca entra na linha... Chico diz que a casa de Manduca parece a casa dos artistas... Manduca diz que já tomaram uma dúzia de cervejas... diz que deu uma saidinha e que Chico pode falar o que quiser, que o senador já chorou".

Presentes. O Ministério Público anexou aos autos fotografia de Gaguim. À página 92 do relatório, os promotores fazem um resumo sobre a suposta participação dele na fraude. "O governador Gaguim teria íntimas relações com os investigados, principalmente com Manduca e Cepera", assinalam. Manduca integrou comitiva oficial de Gaguim à China em abril.

O relatório prossegue: "De acordo com os diálogos telefônicos, Gaguim teria intercedido diretamente em favor das empresas de Cepera em licitações no Tocantins." Os promotores anotam que, em troca do apoio nos negócios de Cepera, Gaguim teria sido agraciado com "viagens, estadias em hotéis de luxo, participação em eventos automobilísticos (corrida da Fórmula Indy em São Paulo) e até com o serviço de prostitutas".

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