Neco Varella/Estadão
Neco Varella/Estadão

Ganenses com visto para a Copa tentam recomeço

Eles estão em abrigos provisórios em SP, Criciúma e Caxias do Sul,sonham com trabalho e querem ajudar a família que ficou na África

Elder Ogliari, enviado especial / Caxias do Sul, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h01

Eles aproveitaram a facilidade para obter visto de turista para a Copa do Mundo e desembarcaram no Brasil em busca de uma nova vida. São centenas de ganenses que não viram os jogos da seleção africana, estão em abrigos provisórios em São Paulo, Criciúma (SC) e Caxias do Sul (RS) e sonham com um emprego. Com o trabalho, querem juntar dinheiro para sobreviver, conquistar algum conforto e, sobretudo, enviar recursos para a família no outro lado do Oceano Atlântico.

A onda de migração de ganenses sucede a de haitianos e senegaleses, que chegam há anos com histórias semelhantes. Depois de algum tempo poupando e eventualmente com ajuda familiar, eles "investem" cerca de US$ 1,5 mil para empreender a viagem Acra-Casablanca-São Paulo de avião, pagar mais um deslocamento de ônibus e sobreviver alguns dias no Brasil. Quase todos são homens jovens, entre 20 e 30 anos. Chegam só com a roupa do corpo e dependem de ajuda.

Movidos pelas informações de que em Caxias do Sul a Polícia Federal (PF) estava habilitada a atender 20 pedidos de refúgio por dia e poderia haver emprego, parte dos ganenses que já estavam em Criciúma tomou o rumo da serra gaúcha. Ao chegar, foram amparados pelo Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), ligado à Igreja Católica, e receberam apoio da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores.

No ginásio de esportes do Seminário Diocesano Nossa Senhora Aparecida, local encontrado pelo CAM para abrigá-los, os ganenses de diferentes cidades formam uma comunidade sem número definido. Dormem em colchões no chão e se abrigam com cobertores e casacos cedidos pela comunidade. Também se organizam em equipes para preparar a comida, lavar louça e manter a área limpa.

O local abrigou 37 pessoas em 4 de julho e 120 na noite do dia 14. Desde então, o número vem caindo. Chegou a cem na noite de anteontem. Nem todos os que chegam a Caxias do Sul permanecem. Apenas um terço dos 371 que procuraram o CAM até ontem ficaram no ginásio.

No local é possível ver, simultaneamente, cenas de ganenses deixando seus nomes e habilitações para voluntários do CAM, tomando informações para encaminhar o pedido de refúgio à PF, jogando futebol, orando, dormindo, preparando a comida ou fazendo limpeza.

Caminho. O vendedor Haruna Ali, de 24 anos, natural de Acra, foi um dos primeiros a obter a documentação completa. Ele solicitou a condição de refugiado à PF e, com o protocolo, providenciou a carteira de trabalho e o cartão do SUS. Anteontem, repassou seus dados ao CAM. Informou que está disponível para trabalhar como entregador de gás ou na construção civil.

Ali conta que o salário de cerca de US$ 100 mensais em Gana tornava a vida muito difícil. Mesmo assim, passou oito anos poupando para emigrar até ter a oportunidade. O Brasil foi escolhido por causa das informações de que o País está crescendo, tem trabalho e facilitaria os vistos para a Copa. Ele imagina que se ganhar R$ 1 mil por mês vai conseguir viver e mandar algo para a irmã e a mãe. "É pela minha família que estou aqui."

Como a maioria dos ganenses é muçulmana, criou-se, atrás do ginásio, um espaço atapetado para que todos possam orar voltados para Meca. Ao rezar, os migrantes postam-se de lado a uma grande cruz colocada na parede do ginásio de esportes da instituição católica. "O Evangelho é para todos, sem distinção de raça, cor ou cultura", diz o padre Edmundo Marcon. O convívio é pacífico. Os ganenses dizem que estão bem acolhidos e se sentem respeitados.

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