Garotos de programa brasileiros são maioria na Espanha, diz ONG

De acordo com a polícia, houve um aumento de brasileiros dedicando-se à prostituição na Espanha

Anelise Infante, BBC

12 Agosto 2011 | 13h36

MADRI - Jovens brasileiros dominam o mercado de prostituição masculina na Espanha, especialmente nas saunas gays de cidades como Madri, Barcelona e Ibiza, segundo uma pesquisa de uma ONG espanhola divulgada no início deste mês. De acordo com o relatório do Coletivo de Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais de Madri (Cogam), a prostituição masculina triplicou desde 2007, início da crise financeira que atinge o país.

O documento afirma também que há diferenças nos esquemas de trabalho entre homens e mulheres estrangeiros que exercem a prostituição no país. Ao contrário da maioria das mulheres, que muitas vezes são vítimas de quadrilhas de tráfico de pessoas e chegam ao país enganadas por falsas promessas de trabalho, em geral, estes homens já têm a intenção de trabalhar no setor e dispensam intermediários.

Cerca de 85% deles se definem como heterossexuais. "Constatamos um aumento significativo de brasileiros dedicando-se à prostituição na Espanha", disse à BBC Brasil um porta-voz da polícia espanhola.  "Mas como exercer a prostituição não é delito, não atuamos. A polícia só intervém quando se trata de uma quadrilha que obrigue as pessoas a se prostituir contra sua vontade. Temos inúmeros exemplos assim com mulheres brasileiras, mas com homens só uma vez, por enquanto.", completou.

Em 2010, a polícia da Espanha capturou uma quadrilha que explorava a prostituição masculina e mantinha garotos de programa brasileiros em regime de cárcere privado.

Rotina de trabalho.  De acordo com o Cogam, os locais de trabalho dos homens são divididos por nacionalidades - africanos (marroquinos, em sua maioria) e europeus do leste (romenos, russos e búlgaros) oferecem serviços nas ruas e os brasileiros controlam as saunas.

Nestas saunas, os homens que se prostituem pagam por dia para dormir em colchonetes ou mesas de massagens quando há poucos clientes. "Cerca de 30% deles é menor de 20 anos. Isso nós comprovamos, mas sabemos que a maioria mente sobre idade porque os clientes querem rapazes cada vez mais jovens", disse à BBC Brasil a assistente social da Cruz Vermelha, Maria de Mar García, que investiga o setor e colaborou na elaboração do relatório.

Depressão. O relatório afirma ainda que é grande o número de casos de depressão e tendência ao suicídio entre os homens que trabalham nas saunas gays. De acordo com especialistas, fatores como a quantidade de horas passadas em espaços sob luz quase inexistente, calor frequente e conflitos pessoais contribuem para uma síndrome que eles chamam de "bomba-relógio".

"(Eles) sentem repugnância pelo contato físico e, para poder evadir-se e manter a libido em condições de trabalho, apelam para o consumo de drogas. Quando o efeito passa, se envergonham e se maltratam emocionalmente. Dizem que suas famílias lhes repudiariam se vissem o que fazem", afirmou à BBC Brasil o psicólogo Jesus Bardo, um dos autores do documento.

 

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