Genro de Serra também teve sigilo quebrado com procuração falsa

Assim como ocorreu com Verônica Serra, documento em nome de Bourgeois foi protocolado na Receita de Santo André

Fausto Macedo e Bruno Tavares, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

A Polícia Federal descobriu que o empresário Alexandre Bourgeois, genro de José Serra, foi alvo da mesma ação fraudulenta da qual foi vítima sua mulher, Verônica Allende Serra, filha do candidato à Presidência pelo PSDB - falsários produziram uma procuração em nome de Bourgeois e o documento foi protocolado na Delegacia da Receita em Santo André a 30 de setembro de 2009 anexo a um pedido de obtenção de cópias das declarações de renda dele relativas ao período de 2005 a 2009.

Segundo a PF, a falsa certidão do genro de Serra chegou à Receita pelo contador Antonio Carlos Atella Ferreira, que durante quase seis anos foi filiado ao PT na cidade de Mauá, foco do escândalo. A PF ainda não sabe quem é o servidor do Fisco que acessou e imprimiu as informações sobre Bourgeois - no caso de Verônica, o procedimento foi tomado pela analista tributária Lucia Milan.

"É de pasmar que isso aconteça dentro de um órgão federal, que a Receita trabalhe dessa forma", protestou o criminalista Sergio Rosenthal, que representa a filha e o genro de Serra. "Os cidadãos não imaginam que seus dados sigilosos sejam tratados dessa maneira."

O advogado destacou que Verônica e o marido "estão evidentemente muito incomodados com essa situação". "Eles não são políticos, não têm vinculação direta com essa campanha (eleitoral) que não seja familiar e se tornaram vítimas de uma violação à sua intimidade e privacidade, vítimas de um crime", assinalou Rosenthal. Na próxima quarta-feira, o advogado vai acompanhar Verônica e Bourgeois à PF. O casal vai depor ao delegado Hugo Uruguai, que preside o inquérito.

A revelação da PF sobre a trama contra o genro de Serra derruba versão da cúpula da Receita, que, por meio de nota pública, na quarta-feira, afirmou que apenas dados cadastrais de Bourgeois haviam sido acessados em Mauá e que não ocorrera violação de sigilo fiscal.

As duas procurações forjadas, supostamente subscritas por Verônica e seu marido, têm as mesmas características, inclusive dados atribuídos ao 16.º Tabelião de Notas, cartório onde eles não têm assinatura depositada.

Letra. Quem elaborou os documentos escreveu errado o sobrenome de Fábio Tadeu Bisogni, titular do tabelião, trocando a letra b pelo r. O tamanho e dizeres do carimbo são diferentes e houve reutilização de selo. "O caso (de Bourgeois) é igual ao de Verônica, os mesmos elementos demonstram que é procuração falsa", disse o tabelião. A PF exibiu a ele o papel em nome do genro de Serra. "Tudo o que se aplica a Verônica se aplica a ele. Até o reconhecimento de firma é falso."

Atella empurrou a responsabilidade pela fraude a outro contador, Ademir Estevam Cabral. Ele afirmou à PF que foi Cabral quem lhe entregou em 29 de setembro pedido de obtenção de cópias de declarações de 18 pessoas físicas - na lista estariam os nomes de Verônica e Bourgeois.

Ontem, Atella foi reintimado e afirmou que Cabral tinha pressa porque os dados eram de interesse de um grupo de Brasília e de Minas.

Lucia Milan, a analista tributária que acessou e copiou as declarações de Verônica, depôs ontem à PF e negou conhecer Atella. O delegado Hugo Uruguai perguntou se ela lembrava da procuração. "Lúcia explicou que não se lembra de nenhuma procuração", disse o advogado Rafael Nobre, do Sindireceita, sindicato dos analistas tributários. "Lúcia não tinha elementos para negar fé àquele documento que lhe foi apresentado e atendeu a solicitação do portador do pedido", afirmou Nobre.

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