''Geração Heliópolis'' queria se vingar da PM

Confronto contou com jovens que cresceram na favela

Marici Capitelli, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2009 | 00h00

Eles podem ser chamados de geração Heliópolis, pois nasceram e cresceram na maior favela da cidade. Foi uma parte desses jovens na faixa dos 15 aos 20 anos que enfrentou anteontem a Tropa de Choque, queimou e depredou veículos. Ontem, eles estavam pelas esquinas onde cresceram, contando sobre o dia em que enfrentaram a Polícia Militar. Mais do que a morte da estudante, na noite de segunda-feira, a garotada disse que o confronto foi um ato de vingança contra a PM.

"A gente cresceu com a polícia humilhando todo o mundo aqui. Ontem, nós demos o troco. Tanto é que não depredamos nada da comunidade", conta Jeferson, de 16 anos. Na opinião dele, dois dos três carros incendiados estavam abandonados na favela e, por isso, não contam como patrimônio local. "Eram de todo o mundo", disse.

Segundo um grupo de amigos, cerca de 20 que participaram do confronto, a ação foi espontânea. "Alguém gritou: ?vamos colocar fogo nessas carcaças e colocar a PM para correr?", conta Roberto, de 17 anos, com o olho roxo. Ele jura que foi um soco de um PM durante uma batida policial na semana passada. "A gente que nasceu na favela não tem valor nenhum para esses policiais", afirma Rodrigo, de 17 anos, que lamentou não ter participado da manifestação. "Tinha ido fazer um bico com meu pai, de pedreiro, e quando cheguei já tinha começado. Foi uma pena. Mas mostramos o nosso valor."

Os adolescentes admitem que sentiram medo durante o confronto. "Mas era nós ou eles. Lutamos pelos nossos direitos?, afirmou Jeferson. As mães não concordaram com a atitude dos filhos, que foram repreendidos em casa. Mas, para eles, a desobediência não teve preço.

Elaine Torres, de 22 anos, é casada com um jovem da geração Heliópolis. Como todos de sua idade, ela detesta PMs. Afirma que já perdeu um bebê com 5 meses de gestação, depois de ter sido espancada durante uma batida policial no ano passado. Entretanto, não concorda com a ação dos colegas da favela. "Aquilo foi vandalismo. Manifestação é todo o mundo pacífico exigindo alguma coisa", disse. Para ela, o confronto só aumentou a hostilidade entre os jovens e a corporação. A filha dela, de 2 meses, precisou ser levada ao hospital depois de ter inalado gás pimenta durante o confronto.

O advogado Luís Justino, da Associação dos Moradores de Paraisópolis, foi levar a solidariedade da "comunidade irmã" aos moradores de Heliópolis. Na opinião dele, a manifestação em Heliópolis, que se assemelhou a de Paraisópolis, é o basta de uma comunidade cansada de injustiças. "Quando a comunidade se revolta, qualquer falso líder se torna um líder naquele momento", disse.

Se os jovens estavam felizes com o confronto com a polícia, essa não era a opinião geral da comunidade. Para eles, o confronto foi um ato de vandalismo feito por baderneiros.

"Eles colocaram fogo em um ônibus na frente da minha casa. Tive de ficar jogando água para não pegar fogo na minha residência. Isso não é protesto. É vandalismo", afirmou um morador, que questionou a ideia de que se atacou apenas o que não era "patrimônio da comunidade". No fim da tarde de ontem, o clima ainda era de expectativa com o possível novo confronto. Seis viaturas da PM chegaram a ocupar uma das ruas e os moradores ficaram nas portas das casas. Apesar do clima tenso,não houve confrontos.

Procurada para falar sobre os casos de violência relatados, a PM informou que só vai pronunciar-se hoje.

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