Tiago Queiroz| Estadão
Karimã Santos e Marina da Fonseca criaram a marca Cumbuka Tiago Queiroz| Estadão

Karimã Santos e Marina da Fonseca criaram a marca Cumbuka Tiago Queiroz| Estadão

Geração pandemia: jovens reinventam vida pessoal e trabalho para contornar a crise 

Perda de emprego e dificuldade de pagar estudos afetam grupos nas faixas dos 20 e 30 anos; sair da casa dos pais também se torna um desafio

Priscila Mengue , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Karimã Santos e Marina da Fonseca criaram a marca Cumbuka Tiago Queiroz| Estadão

Sair da casa dos pais. Entrar na faculdade. Investir na carreira. Pagar todas as contas. Morar fora. Empreender. Casar. Começar uma família. Enfim, tornar-se independente. Tantas novas experiências em tão pouco tempo. Para a juventude, um semestre ou um ano é muito, ainda mais quando vem junto do distanciamento, do isolamento, do desemprego, das dificuldades financeiras, das incertezas, do temor e tudo mais que a pandemia traz.

Por aqui e lá fora, ganhou espaço o termo “geração pandemia”, referente a esse grupo que nasceu cheio de expectativas para liderar um futuro melhor e agora se deparou com a maior crise de saúde do último século. No Brasil, as experiências vividas por jovens adultos em 2020 são influenciadas por desigualdades e outros tantos fatores. Vão de grandes dificuldades e planos congelados até redescobertas e mudanças que deram certo.

“Tinha planos de conseguir terminar a faculdade 'de boas' logo, arrumar estágio e me mudar. Mas a minha vida virou de cabeça para baixo”, conta o estudante de Enfermagem Lucas Lino Pinheiro, de 21 anos, que vive em São Paulo. Demitido de um emprego em telemarketing em maio, não conseguiu recolocação profissional, trabalhos temporários, estágio remunerado ou acesso ao auxílio emergencial.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Fico frustrado. Tenho todos esses planos, mas não tenho perspectiva de avançar com eles. Todo mês é uma insegurança.
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
 

Ele teve de desistir da ideia de não morar mais com a mãe e a avó. “A minha perspectiva é que, no próximo ano, seja a mesma coisa, talvez pior”, lamenta. “Minha mãe não sofreu os efeitos (econômicos) da pandemia. Se tivesse, nem sei onde estaria hoje.” Ele continua na faculdade porque a matriarca passou a bancar a mensalidade.

Para não ficar parado, ampliar a experiência profissional e compensar a falta de aulas presenciais, Lucas começou a trabalhar de forma voluntária, há três meses, em um posto de saúde e, posteriormente, em um hospital público. “Entrei 'meio' em depressão por ficar em casa o tempo todo; estava ficando para baixo, sem ânimo. Foi uma forma de reagir”, diz. “Sinto prazer em ajudar.”

De app de entrega a marmita caseira, jovens procuram alternativa de renda

Também com 21 anos e da capital paulista, Luana Cyrillo viveu mudanças ainda mais intensas, especialmente há dois meses. “Para mim, a pandemia foi boa. Saí de um relacionamento que estava ruim, tomei uma liberdade grande, ganhei meu dinheiro e tive a possibilidade de conseguir um lugar para morar com a minha filha (Kerolayne, de 1 ano)”, relata.

Luana conseguiu se mudar com o que recebeu em transmissões ao vivo pelo TikTok, aplicativo popular entre adolescentes e jovens e que permite que seguidores deem “gorjetas” pelo conteúdo. “Comecei a fazer bastante vídeo, peguei muitos amigos. Conversava (nas lives) sobre o meu dia a dia, a minha filha, respondia coisas que me perguntavam”, explica.

Agora, a jovem obtém renda com a venda de bolos caseiros e a nova rotina como entregadora de aplicativo. “Tive essa ideia vendo o canal dessa menina (que exerce a mesma ocupação) no YouTube. Aí me falaram que dava para fazer de bicicleta.”

Os primeiros meses deram resultado e ela até planeja comprar uma moto, para ampliar as entregas. “É bom que tem horário flexível, por causa da minha filha”, comenta. “Trabalho de terça a sábado, às vezes de domingo a segunda. Normalmente saio às 10 (horas) e volto às 8, 9, às vezes 10, da noite. É o dia inteiro mesmo.”

Com a mudança, ela viveu mais um momento marcante na vida de grande parte das mães: o de voltar a trabalhar fora. Por isso, agora convive menos com a filha, que agora passa os dias na casa de uma babá.“Ela sempre ficou comigo até eu me separar. Foi o primeiro contato de ela ficar longe de mim."

Todos os dias, quando as duas voltam para casa, é a hora do banho e de colocar todas as roupas para lavar – sem contar a desinfecção dos acessórios da bicicleta. Desse jeito, o entretenimento fica reservado aos domingos. “O lazer é só da minha filha. Levo para praças que não têm tanta gente ou trago na minha mãe, que sei que é mais seguro.”

Ela diz que se encontrou e percebeu talentos na pandemia, como o da comédia, que explora nos vídeos no TikTok, e até aperfeiçoou as próprias receitas de bolos. “Tem sido tranquilo. Acho que a gente tem que tirar esse tempo para refletir sobre nós mesmos. Às vezes, a gente fica muito na bagunça, pela idade, o que é normal."

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Na pandemia, todo mundo foi obrigado a ficar em casa e descobriu dons que não sabia que tinha.
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313

A frase de Luana também resume o momento da maquiadora e designer de sobrancelhas Karimã de Souza Santos, de 25 anos, e da arquiteta Marina Silva da Fonseca, de 26 anos, de São Paulo, que descobriram um novo ofício, criando a marca Cumbuka, de refeições em cumbucas. “Somos de áreas totalmente diferentes, não imaginávamos nem por um pouco parar na gastronomia”, conta Karimã.

Elas investiram na nova empreitada após Marina ficar desempregada e Karimã ver a procura de clientes minguar. Além disso, com o início do distanciamento social, decidiram passar o período juntas, após oito meses de namoro. “Fomos casadas pela pandemia.”

 

Após começar a fazer terapia, para lidar com as consequências da pandemia, a maquiadora se descobriu na gastronomia. Ela, que antes dizia não cozinhar bem, começou a se envolver e até a criar pratos. “A Cumbuka ainda não supre a gente para pagar todas as contas. Mas já fizemos vários planos. A gente começou a sonhar mais."

Os clientes vieram com um empurrãozinho de amigos, familiares e das redes sociais. Mesmo com a flexibilização da quarentena e a retomada de alguns trabalhos como freelancer, elas querem seguir com a marca. “Agora, a gente não consegue alugar um lugar, pelo custo muito alto, mas talvez com Cumbuka crescendo mais… A gente já pensou como seria, despojado, com a nossa cara.”

O produtor de eventos Wil Amiden, de 31 anos, passou por experiência semelhante. Demitido em março, foi obrigado a trocar a rotina profissional de até quatro festas por semana por dias inteiros dentro de um apartamento. “Esse ano, já tinha a agenda cheia de eventos. O meu setor foi o primeiro a fechar e vai ser o último a voltar”, destaca.

“Nisso, fiquei um mês, um mês e meio, muito mal, sem chão, sem saber o que fazer. Ninguém estava contratando. Estava ganhando bem e, do nada, acaba tudo”, lembra. “Tranquilidade eu não vi. Tive medo de perder tudo o que tinha conquistado. Eu me senti sozinho. Juntou com o meu pai tendo de fazer uma operação, precisei começar terapia.”

Também pela pandemia e para ajudar no aluguel, Wil passou a morar com o namorado (além do irmão, com quem já dividia um apartamento) e recebeu uma amiga temporariamente. Aí veio a ideia de fazer marmitas saudáveis para vender, que virou a Mango Rosé. “Primeiro teve a insegurança. O ‘startar’ demorou muito. Pensei no início da pandemia, mas só tive coragem depois de três meses.”

Com o aumento da demanda, ele já pensa em se dedicar em tempo integral ao projeto, mesmo após a pandemia, com a criação de uma dark kitchen (cozinha exclusivamente para entregas). “A gente nunca imaginou que estaria em uma pandemia, que o mundo iria virar de cabeça pra baixo. Querendo ou não, ela me transformou. Tive uma trajetória de sofrimento, mas, através de toda dor, vem a transformação. Me tornei uma nova pessoa.”

Outro que se debruçou sobre o empreendedorismo foi o ator Junior Cabral, de 35 anos, de São Paulo, que tinha acabado que idealizar a marca de roupas Die Vibe (com tingimento artístico a tinta, que segue uma tendência que ganhou espaço pandemia) quando viu todos os espetáculos em que atuaria serem suspensos. "De repente, tudo virou outra coisa." "Me propus a aprender do zero. Não sabia fazer nada, não sabia costurar, não sabia absolutamente nada. Perguntava para uma pessoa, para outra, assisti muitos vídeos no YouTube. Hoje, (cada peça) é quase como se fosse um filho.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Ensino a distância muda relação com aulas e interrompe sonho de intercâmbio

Aluna de Direito teve dificuldade com novo modelo de classes; já dentista decidiu voltar para a universidade

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2020 | 10h00

A pandemia também tem afetado de formas distintas quem estuda. O mergulho brusco no ensino a distância trouxe prejuízos para parte dos graduandos e pós-graduandos. É o caso da estudante de Direito Julia Faccioli, de 20 anos, que chegou a anunciar no YouTube que trancaria a “faculdade dos sonhos”. De Petrolina (PE), ela mudou de ideia ao perceber que a pandemia se arrastaria por mais do que alguns meses.

“Não estava tendo o rendimento de antes. Conversei com meu pai e ele deixou nas minhas mãos. Fiquei uns dois meses pensando, mas decidi tentar continuar. Até agora está sendo mais ou menos; consigo me esforçar mais em duas (disciplinas)”, justifica. 

Por conta da pandemia, Julia pausou o plano de procurar estágio, o curso de inglês e a viagem de intercâmbio no Canadá. Ela continua saindo de casa diariamente para trabalhar e diz tomar uma série de medidas para evitar expor o irmão, que é do grupo de risco da covid-19. “Ando com álcool para cima e para baixo. O meu pai brinca ‘minha filha, o corona chega nem perto de você’.”

Já a dentista Júlia Mulder, de 26 anos, viveu experiência distinta: decidiu voltar à vida acadêmica. Ela tinha conseguido uma “renda bacana” e trabalhava em duas clínicas odontológicas, quando foi dispensada por causa da pandemia. No início, passou três meses com a mãe. Também focou os atendimentos em domicílio para tratamento de pacientes com DTM (dores na mandíbula, frequentemente associadas a tensão). “Já tinha minhas dúvidas em ficar clinicando pelo resto da vida."

Júlia procurou, então, uma professora da graduação que a convidou para fazer uma seleção de mestrado, que, no fim, acabou virando um doutorado, iniciado em agosto. “Financeiramente, não sei como vai ser, ainda mais com o corte de bolsas do governo. Com o EAD, consegui antecipar muita matéria.”

Para dar uma “relaxada no mental”, ela sai, às vezes, com o namorado para tomar um solzinho em uma praça, longe de aglomerações. “Enquanto estava na minha mãe, estava paranóica, seguindo todos os protocolos, entrava pelada em casa, ia direto para o banho, lavava debaixo de cada unha.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Intimidade dos jovens com universo virtual ajuda no isolamento, afirma especialista

Efeitos da crise podem ser sentidos por muitos anos e varia conforme o grupo social; 'Sequestraram o futuro, o tempo está em suspenso', diz outro pesquisador

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2020 | 10h00

Em um processo contínuo de adultização, os jovens vivem as consequências da pandemia de formas distintas de outras faixas etárias, destaca o antropólogo e pesquisador Michel Alcoforado. Para ele, o impacto do momento atual acaba se assemelhando ao de uma guerra ou outras grandes epidemias. “Tem reflexos na vida toda.”

Ele destaca o aspecto de os jovens atingirem a independência e a autonomia na rua, seja no trabalho, seja na faculdade, seja nas relações. “A primeira grande ruptura (da pandemia) é que esse espaço está interditado para quem é jovem. Sequestraram o futuro, o tempo está em suspenso.”

Para o antropólogo, por mais que os valores e ambições não sejam os mesmos, esse grupo precisa ter uma ideia de projeto futuro muito clara. “É como se o cara tivesse treinado para correr uma maratona, mas, quando chegou nos 20 dos 42 km, não é mais aquele percurso que se está acostumado. E, se perguntar para onde correr, não tem para onde correr, tem de ficar paradão.”

Já o sociólogo Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acredita que os jovens podem até se adaptar melhor às condições atuais do que outras gerações, embora ressalte que as experiências são bastante distintas entre diferentes grupos sociais, raciais e de gênero. “São muito mais adaptados a esse universo virtual, do home office, do teletrabalho, do que as pessoas mais velhas”, diz. “Eles têm a vida real a virtual em paralelo, conseguem lidar melhor com a não presença.”

Para ele, o resultado desse período vai depender das experiências individuais. “Pode-se levar para o pós-pandemia o conhecimento adquirido, os hábitos que desenvolveram. Vai depender de cada um, do apoio da família, da rede de sociabilidade.”

Pesquisa aponta piora no lazer, estado emocional e renda dos jovens na pandemia

Uma pesquisa com 33,6 mil adolescentes e jovens de 15 a 29 anos divulgada no fim de junho demonstrou as dificuldades e angústias desse grupo na pandemia, realizada pelo Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) em cooperação com a Unesco, braço das Nações Unidas para a educação, e outras organizações. 

Do total, a maioria relatou piora em aspectos da qualidade de vida, como lazer (73%), estado emocional (70%), disponibilidade de recurso financeiro (58%) sono (55%) e alimentação (42%). Já os dados positivos foram restritos às relações dentro de casa (melhora em 33%, enquanto 41% se mantiveram como antes) e à higiene (62% melhoraram e 32% se mantiveram). 

Entre os que atuavam profissionalmente, 27% perderam o trabalho. Além disso, 33% buscaram outras formas para complementar a renda. No geral, há mais pessimistas (34%) em relação ao futuro do que otimistas (27%), embora a maioria seja neutra nesse tema.

Ao falar de preocupações, as mais relatadas foram: perder a família (75%), infectar-se com a covid-19 (48%), transmitir a doença para outras pessoas (45%), morrer (27%) e passar por dificuldade financeira (26%).  Além disso, em relação aos estudos, 80% concordam que o lado emocional tem atrapalhado, 82% têm dificuldade para se organizar para estudar, 80% estão com dificuldade para tirar dúvidas com professores e 63% sentem falta de um ambiente tranquilo para estudar. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.