Antonio Lacerda/ EFE
Antonio Lacerda/ EFE

Gerente de lanchonete em Copacabana chamado de 'macaco' denuncia cliente

Mulher ficou indignada porque o banheiro estava fechado e começou a xingar gerente. 'Eu me senti humilhado, não esperava que isso fosse acontecer no meu local de trabalho', contou o rapaz à polícia

Roberta Pennafort e Fábio Grellet, O Estado de S. Paulo

05 de setembro de 2016 | 12h30
Atualizado 05 de setembro de 2016 | 22h58

RIO - Uma semana após um caso de injúria racial ser registrado na praia da Reserva (zona oeste do Rio), outro episódio de preconceito ocorreu neste domingo, 4, no Rio, desta vez em uma lanchonete de Copacabana (zona sul). Uma cliente de uma lanchonete na Rua Barata Ribeiro ficou revoltada porque a porta do banheiro do estabelecimento estava trancada e começou a ofender o gerente, que é negro. Depois de ser chamado duas vezes de “macaco”, ele avisou a polícia. O caso foi registrado na 12ª DP (Copacabana).

A mulher foi autuada por injúria (cuja punição varia de um a seis meses de prisão) e injúria racial (cuja pena varia de um a três anos de prisão, além de multa).

Segundo testemunhas que prestaram depoimento à polícia confirmando as agressões verbais, ao se deparar com o banheiro fechado a mulher começou a xingar e a humilhar o funcionário. O ataque começou dentro da lanchonete e continuou na calçada. Eram 20h30 de domingo. O estabelecimento comercial estava lotado.

"Ela começou a xingar com palavras agressivas, com agressões verbais de tudo que é forma. Começou a bater no vidro, insistindo em me xingar de 'macaco'. Lá fora bateu no vidro e me chamou de 'macaco' bem alto. A própria colega tentou tapar a boca dela, sabendo que ela estava errada", contou o gerente da lanchonete, identificado apenas como Paulo César, à TV Globo. "Eu me senti humilhado, não esperava que isso fosse acontecer no meu próprio local de trabalho, onde trabalho há 12 anos. Isso não deve acontecer com ninguém."

Previsto no artigo 140, parágrafo 3º, do Código Penal, o crime de injúria racial se caracteriza pela ofensa "da dignidade ou do decoro utilizando elementos de raça, cor, etnia, religião, origem ou condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência". Segundo a polícia, a mulher foi indiciada e depois liberada.

Outro caso. Uma semana antes, no dia 28 de agosto, a agente de viagens Sulamita Mermier, de 31 anos, estava na praia da Reserva, na zona oeste, quando uma mulher instalada no guarda-sol vizinho passou a ofendê-la com insultos racistas - afirmou que “preto é sub-raça”, “deveria pegar outra praia” e “não devia tomar sol”.

Sulamita, que se classifica como mulata, passou a gravar a conduta da mulher em seu celular. Ao notar a filmagem, a mulher reagiu: “Grava essa merda. A gente vai para a delegacia e tu vai (sic) pagar mico. Porque eu não sei quem você é, eu sei quem eu sou. Você eu nunca vi. Vou acabar com a raça dessa desgraçada”.

Entre outras ofensas, a mulher - identificada como a pedagoga Sonia Rebello Fernandez, de 54 anos, que estava acompanhada pelo marido e outros adultos - afirmou que “preto é nojento, é lixo”, classificou Sulamita como “encardida” e disse que “suburbanos deveriam procurar outra praia”. As pessoas que acompanhavam Sonia não se manifestaram.

O caso foi registrado na 16ª DP (Barra da Tijuca), também como injúria e injúria racial. Sonia se recusou a responder as perguntas do delegado. Ela pagou R$ 500 como fiança e foi libertada.

O vídeo gravado por Sulamita já teve mais de sete milhões de visualizações em redes sociais.“Sou mulata mesmo, isso pra mim não é ofensa nenhuma, não me senti ofendida por isso, agora você ser chamada de mulata encardida, nojenta, que eu tinha que pegar sol em um penico em casa, que meu marido devia ter nojo sim, isso é muito humilhante”, postou Sulamita após o episódio.

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