Gestão do interino de Kassab começa com festa

As normas de boas maneiras políticas ensinam que o prefeito interino não deve sentar-se na cadeira do titular quando ele se ausenta. Não pega bem. O presidente da Câmara dos Vereadores, Antônio Carlos Rodrigues (PR - ex-PL), seguiu a etiqueta na quarta-feira, 28, em seu primeiro dia como prefeito, substituindo Gilberto Kassab (DEM - ex-PFL), que está em viagem de três dias na Europa.Ele passou o dia despachando na mesa de reuniões do gabinete, em frente ao óleo sobre tela de Antônio Parreiras, que retrata jesuítas rezando a missa no dia da fundação de São Paulo. Veio do quadro a inspiração para a piada oficial do dia, contada para quebrar o gelo sempre que uma nova visita chegava. ?Olha só?, apontava para a tela. ?Eu não sabia que o José Serra permanecia no gabinete?, dizia, em referência ao padre jesuíta careca que rezava a missa. Era certeza de gargalhada.Sem planos mirabolantes para os próximos três dias, Rodrigues aproveitou para escancarar as portas da casa para seus velhos amigos, os vereadores de São Paulo. Foram 24 ao longo do dia, de todos os partidos. Por volta das 8 horas, Milton Leite (PMDB) começou a ligar pedindo uma audiência. De tanto que insistiu, foi o primeiro a ser recebido. Logo às 9 horas. ?Queria liberação de verbas de recapeamento para a região de M?Boi Mirim. Ele dizia ?assina, assina?, mas só registrei o pedido?.Perto das 15 horas, sem que nada tivesse sido combinado, veio a grande surpresa. Dezesseis vereadores largaram a sessão da Câmara para levar um bolo de chocolate, enfeitado com os dizeres ?Antônio Carlos Rodrigues Prefeito?, feito pela tia do vereador Adílson Amadeu (PTB). O gabinete virou uma festa.Durante os primeiros cinco minutos, todos riram do jesuíta careca sósia do governador. Foram para a sala em anexo e sentaram-se em volta da mesa de reuniões. Começaram as brincadeiras. Claudete Alves (PT) disse que queria a pasta de Educação; para Amadeu iria a Secretaria dos Transportes. Aurélio Miguel (PR) ficaria com a chefia de governo e Roberto Tripoli (PV), com o Verde. No meio da algazarra, o ajudante de ordens traz um telefone celular. Era o prefeito Kassab ligando de Brasília. Silêncio na sala. Do outro lado da linha, Kassab brinca que perdeu o vôo para Europa e que estaria nesta quinta-feira, 29, mesmo de volta a São Paulo. ?Vai encontrar a Prefeitura quebrada. Dividi todo o dinheiro entre os 30 vereadores que estão aqui na minha frente?. Gargalhadas.Enquanto comiam o bolo, eles conversavam sobre a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que na terça-feira determinou que o mandato do deputado federal pertencia ao partido. Eles pareciam indignados, mas não o suficiente para esquecer o brinde. A tarefa solene coube a Tripoli. ?Que o prefeito Gilberto Kassab tenha dor de barriga para o Carlinhos permanecer por aqui mais tempo?. A euforia com a bela recepção aos vereadores continuou na saída. ?Que você fique por muito tempo. Em nome de Jesus?, dizia a vereadora Miriam Athiê (PPS).Como ninguém é de ferro, Rodrigues aproveitou o dia no cargo para solicitar ao Ministério do Turismo verbas para um projeto seu: a construção de transportes sobre trilhos para turistas ligando o centro velho ao novo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.