''''Gi, caiu um avião em cima da gente''''

Gerente da TAM falou com a mulher ao telefone após o acidente; ele teve múltiplas fraturas e morreu no hospital

Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

21 Julho 2007 | 00h00

José Antônio gostava de andar pelas montanhas de Santo Antônio do Pinhal, na serra de São Paulo, com a companheira Giselle. Sonhava em viver com ela na praia, longe da confusão da capital. O gerente-geral de tráfego da TAM, que trabalhava no prédio atingido pelo Airbus, morreu às 3h55 de ontem no Hospital Arthur Ribeiro de Saboya, zona sul. Segundo informações do hospital, José Antonio Rodrigues Silva, de 50 anos, sofreu múltiplas fraturas, queimaduras de segundo grau e intoxicação por monóxido de carbono. O grau de ferimentos provavelmente deveu-se à tentativa de ajudar os colegas e amigos da empresa em que trabalhava havia três anos. Ontem a assistente social Giselle Garcia, sua companheira, que também trabalha em uma empresa aérea, desmentia boatos de que ele tivesse se jogado do prédio em chamas. Logo que soube da tragédia, ela ligou no rádio do marido. ''''Liguei no Nextel e disse: ''''O que foi que aconteceu?'''' Ele me falou: ''''Gi, caiu um avião em cima da gente. Eu tô ajudando as pessoas.'''' Então, caiu a linha'''', disse Giselle, que esteve ao lado do gerente por 16 anos - era o segundo casamento de José Antonio. Sem filhos, os dois gostavam de viajar . Viviam em clima de namoro. ''''Ele é o amor da minha vida, e dizia o mesmo para mim.'''' Os dois se conheceram em uma companhia área - o gerente atuava havia 30 anos no setor -, foram muito amigos primeiro e depois se apaixonaram. O marido também vivia satisfeito com o trabalho, disse ainda a assistente social. ''''Era dedicação total. Autoridades da Infraero, da Receita Federal o conheciam e o respeitavam. Era uma pessoa amiga, equilibrada. E adorava a praia, queria morar na praia, tinha esse sonho que não conseguiu realizar.'''' José Antônio nasceu na cidade do Porto, em Portugal, e veio aos dois anos para o Brasil. O pai faleceu, mas a mãe ainda vive aqui. ''''Ele se considerava brasileiro, embora não tenha cidadania. Considerava-se paulista, era são-paulino, não era fanático, mas torcia. Era feliz'''', afirma a assistente social. O corpo de José Antonio deveria seguir ainda ontem para o Instituto Médico-Legal (IML) - o enterro será no Cemitério de Congonhas, na zona sul. Ontem no fim da tarde Giselle foi para casa, tomou um banho e começou a separar as roupas para vestir o marido. Algo que já teve de fazer para ajudar outras famílias em seu trabalho de assistente social. ''''Já fiz isso tantas vezes, essas coisas horríveis de se fazer, mas quando é alguém de nosso relacionamento...'''' Giselle fica quieta. O Estado não publica fotos do funcionário a pedido dela. ''''Ele era discreto. Escreva só isso que eu disse. Acho que ele gostaria se saísse assim.''''

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