Felipe Werneck/AE
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Ginásio vira necrotério improvisado em Nova Friburgo

Corpos estão sendo levados para quadra do Instituto de Educação; comércio segue fechado

Felipe Werneck, O Estado de S. Paulo

13 de janeiro de 2011 | 19h05

RIO - Até o início da tarde de hoje, 153 corpos já haviam sido levados para o ginásio do Instituto de Educação de Nova Friburgo, onde foi improvisado o necrotério da tragédia. "Vi muito meu sobrinho jogar bola aqui", comenta um senhor que está sentado ao lado do repórter no último degrau da arquibancada, aguardando ser chamado para receber a declaração de óbito. Caixões de todos os tamanhos estão empilhados perto da trave do gol e os corpos são enfileirados dos cantos para o centro da quadra, a medida em que chegam, carregados em carrinhos de mão.

 

Pedro Júlio Brantes Folly, o sobrinho do comerciante Weimar Jaccoud, de 57, tinha 10 anos. "Ele foi passar o fim de semana na casa da avó, Maria do Carmo, que também morreu. Eles estão juntos ali", aponta Jaccoud, segurando o choro, para a lateral da quadra na altura do meio de campo.

 

O comerciante aguarda mais um pouco e recebe as duas vias das declarações de óbito. "Preciso entregar para o pessoal que faz o enterro." Corpos continuam chegando em carrinhos de mão. Um pranto silencioso toma conta do ginásio. Sai mais um caixão para ser enterrado.

 

À medida que corpos são retirados, após o reconhecimento e a identificação, uma mulher prega uma cruz de esparadrapo no taco da quadra. Do lado de fora, a fila e a apreensão aumentam. "Algum parente da Jenifer Alves?", grita a mulher com o papel na mão. Dezenas de pessoas aguardam a sua vez de cabeça baixa, sem tumulto. Algumas choram nos cantos. Chega mais um caminhão lotado de caixões novos.

 

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A cidade de Nova Friburgo viveu mais um dia sem luz, sem água, sem telefone fixo nas casas e sem sinal de telefone celular _ apenas rádios funcionavam. Dezenas de produtos descartados pelas farmácias, porque foram contaminados pela enxurrada, eram disputados na rua pelos moradores.

 

O comércio continuou fechado. Muitas pessoas temiam o desabastecimento de comida e água. Os dois principais supermercados da cidade estavam fechados. Na porta do ABC Compre Bem uma placa avisava: por motivo de força maior não abriremos hoje.

 

Circularam boatos de que lojas estariam sendo saqueadas, mas a Polícia Militar não confirmou nem um caso. Uma delicatessen, na Rua General Osório, foi furtada porque as portas haviam sido arrancadas pelas chuvas.

 

Voltou a chover no final da tarde de hoje. A Defesa Civil local alertava para o risco de novos deslizamentos e chegou a suspender buscas. Muita gente carregava malas e sacolas, deixando suas casas, no final da tarde. No início da noite, pelo menos 20 caminhões do Exército e da Marinha, chegavam à cidade.

 

Dois dos três bombeiros que estavam desaparecidos desde o início da busca tiveram seus corpos retirados ontem. No momento do resgate, quando os corpos eram levados, houve aplausos.

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