''Gosta tanto dela que se desequilibrou''

Descrito por vizinhos como ?normal? e ?trabalhador?, Lindembergue Alves procurava a ex-namorada havia mais de um mês

Vitor Hugo Brandalise e Marcela Spinosa, O Estadao de S.Paulo

16 Outubro 2008 | 00h00

Ao longo do último mês e meio, o auxiliar de produção Lindembergue Alves, de 22 anos, ligou todos os dias para a ex-namorada, Eloá, de 15. Dizia que precisavam conversar. Insistia. Chegou a ligar 15 vezes numa só tarde. "Ele gosta tanto dela que se desequilibrou", diz V., uma das melhores amigas de Eloá, que mora na frente do predinho onde o casal permanecia, até a noite de ontem, há 55 horas, desde as 13h30 de segunda-feira. Cobertura online e todas as notícias sobre o seqüestro Com 1,75 metro e cerca de 70 quilos, "Liso", como é conhecido no conjunto da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), onde mora com a família, é definido por parentes e amigos como "um rapaz trabalhador", um tipo normal que batia bola aos sábados na quadra da escola próxima da casa, mas que perdeu o equilíbrio diante das negativas de Eloá em reatar um namoro recém-terminado. "Ele não se conformava. Brigava por causa do Orkut, das mensagens de celular, dos amigos que se aproximaram novamente", relata V.. Funcionário da empresa Cargas e Descargas Alphaville, prestadora de serviços para a Bombril em São Bernardo, Alves saía de casa por volta das 6 horas para voltar perto das 16. Nos fins de semana, complementava o salário - cerca de R$ 600, segundo amigos - trabalhando como entregador numa pizzaria das redondezas. "Por aqui pode ter de tudo, mas esse é um bom rapaz. Surpreendeu todo mundo com isso aí", diz o amigo A., companheiro de futebol nos fins de semana. Entre as surpresas, para amigos e família, está o fato de Lindembergue ter conseguido uma arma. "Nunca mexeu com isso. Não sei como pode ter conseguido, mas, pensando bem, por aqui é fácil", diz A.. Caçula de quatro filhos - todos de pais diferentes -, Alves nasceu em Patos (PB) e veio para São Paulo aos 2 anos. Completou o ensino fundamental e estudou até a 3ª série do médio na Escola Estadual José Carlos Antunes - a mesma de Eloá -, até abandonar o estudo para trabalhar em tempo integral. "Sempre que dava, ele ia até a escola pegar a namorada. Até depois de terem terminado, ele aparecia", afirma outra colega de Eloá. Morador do Bloco 80 do conjunto - Eloá mora no 24 -, os vizinhos nunca perceberam nele sinal de agressividade. "Era na dele", disse a dona de casa Edileuza Maria da Costa, de 42 anos. "Ele é bem quieto e sempre foi um bom vizinho", lamentou a dona de casa Ivaneide Melo da Silva de Oliveira, de 29 anos. Segundo elas, durante o tempo em que o namoro durou, Eloá sempre ia até o prédio do rapaz. Nunca presenciaram brigas e cenas de ciúme entre os dois. Às quintas-feiras à noite, Alves participava do programa típico dos jovens moradores do conjunto - ao som de funk, manobrava sua motocicleta pela Rua dos Dominicanos, na frente dos prédios, até por volta das 23 horas, enquanto a feira livre montada no local fica em pé. Também freqüentava as festas no "shoppinho", uma galeria comercial que concede, nos fins de semana, salas vazias para bailes funk. Em ambos os programas, não costumava levar a namorada. Ultimamente, ele aparecia cada vez menos. E, segundo amigos, estava "sempre preocupado". Após Alves terminar o namoro pela última vez - em dois anos e sete meses de relacionamento, terminou "mais de dez vezes" -, no início de agosto, Eloá decidiu que era definitivo. Passou a sair mais com o grupo de amigos da Escola Estadual José Carlos Antunes, onde cursa a 1ª série do ensino médio e a ignorar as chamadas do ex-namorado. "Isso foi o que mais doeu nele. Ela chorava na aula e dizia que não sabia o que ele podia fazer", diz a colega. Nas últimas duas semanas, percebendo que agora o namoro não seria reatado, a implicância de Alves com os amigos de Eloá aumentou. Passou a fazer ameaças a dois garotos - um deles, o que enviou mensagem no celular de Eloá na tarde de segunda-feira, possivelmente o motivo de uma das agressões de Alves contra a ex-namorada. "Quando ele soube que a turma da escola iria para o (parque de diversões) Hopi Hari hoje (ontem), ele ficou muito bravo", relata T.S., outro amigo de Alves. "Já ouvi dizerem que ele fez isso para impedir." MENINA FALANTE Cabelos negros e compridos, olhos escuros puxados e um sorriso largo. Eloá é considerada a menina mais bonita da escola onde estuda, em Santo André, a mesma dos outros três colegas que, junto com ela, foram mantidos reféns pelo ex-namorado da adolescente. A timidez dos 15 anos não combina com Eloá. Ela é uma menina falante e que adora música eletrônica. Filha de um segurança e de uma merendeira, nasceu em Maceió, Alagoas. A família vive em Santo André há 13 anos. O casal tem outros dois filhos. Foi nos arredores do conjunto habitacional onde é mantida refém que conheceu Lindembergue Fernandes Alves, seu seqüestrador.

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