Gosto amargo de CPIs explica obsessão de Lula com Senado

Um dos primeiros conselhos dados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à recém-eleita Dilma Rousseff, no ano passado, foi para que mantivesse o Senado sob controle. O próprio Lula se empenhou em impedir a reeleição de senadores hostis. Caso contrário, ela poderia correr riscos, disse Lula.

João Domingos, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2011 | 00h00

Em sete meses de governo, Dilma Rousseff pôde sentir que o Senado, de fato, pode tornar-se perigoso de uma hora para a outra, apesar de ter ali uma base de apoio duas vezes maior do que a oposição.

Os oposicionistas não têm número suficiente de senadores nem para requerer a instalação de uma CPI, que exige 27 assinaturas de apoio.

Mas conseguiram o apoio à CPI dos Transportes de senadores da base do governo espalhados pelo PMDB, PDT e PP. A presidente Dilma teve de intervir, fazer promessas e barganhas, para conseguir sepultar a Comissão parlamentar de Inquérito.

Na oposição, o PT foi um dos partidos mais competentes na criação de CPIs e no uso delas para atacar os governos. Conseguiu, com a CPI de PC Farias (1992), levar ao impeachment do então presidente Fernando Collor.

Em seguida, com a CPI dos Anões do Orçamento (1993/1994), quase destroçou o PMDB, tornando ainda inviável a revisão constitucional.

Mas o PT também sentiu quanto é amargo ser governo e ter uma CPI nos seus calcanhares. Nos mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003/2010), duas delas atazanaram o governo. A primeira delas, instalada para apurar denúncias de irregularidades nos Correios, investigou as entranhas do governo ao investigar o mensalão e derrubou toda a cúpula dos partidos aliados, do PT ao antigo PL (hoje PR) e ao PP.

Depois de meses de investigação, em 2005, a CPI dos Correios enviou ao Ministério Público apurações que resultaram no pedido de abertura de processo contra 40 integrantes e ex-integrantes do governo, além de assessores partidários e doleiros. Entre eles, o ex-ministro José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino, o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP).

Um pouco à frente, os partidos de oposição conseguiram abrir a CPI dos Bingos. Essa CPI investigou tudo, menos bingo. Não por acaso foi apelidada de CPI do Fim do Mundo. Avançou até sobre Gilberto Carvalho, então secretário particular do presidente Lula, investigando o envolvimento dele com suposto esquema de corrupção na Prefeitura de Santo André. Carvalho, hoje ministro de Dilma, teve de se submeter a uma acareação com dois irmãos do então prefeito Celso Daniel, assassinado, que o acusaram de participar de atos de corrupção e de tramar a morte do ex-prefeito.

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