Governador critica postura de estatal na exploração de urânio

Rui Costa diz não 'ter a menor dúvida' sobre a falta de transparência da INB; mina de urânio a céu aberto é explorada há 15 anos na BA

André Borges, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2015 | 15h24

BRASÍLIA - O governador da Bahia, Rui Costa (PT), criticou a postura da estatal federal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e disse que a empresa mantém uma relação de distanciamento com o governo estadual e com a população que vive na região dos municípios de Caetité e Lagoa Real, região onde INB explora uma mina de urânio a céu aberto há 15 anos.

Ao Estado, Rui Costa disse que "não tem a menor dúvida" sobre a falta de transparência da empresa. "A INB precisa interagir mais com a comunidade e com o Estado da Bahia. Ela é uma empresa distante, que só faz tirar o mineral, e não tem nenhuma relação com a Bahia e com a sociedade local. Eu não tenho a menor dúvida disso", afirmou o governador.

Rui Costa, que esteve ontem em Brasília para um encontro com o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Aroldo Cedraz, disse que o governo baiano também vai acelerar as inspeções de água na região de Lagoa Real, onde foi detectado um poço contaminado com alto teor de urânio. "Nós vamos aprimorar e acompanhar de perto essas medições", comentou.

Na semana passada, durante audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara, a INB foi acusada de omitir informações do governo e de órgãos de controle. O secretário de Meio Ambiente da Bahia, Eugênio Spengler, disse que o governo baiano não tem acesso a dados da empresa. 

A falta de transparência também foi apontada pelo coordenador geral de Transporte, Mineração e Obras Civis do Ibama, Jônatas Trindade. Tanto o Ibama quanto o governo da Bahia e demais órgãos do governo federal só tomaram conhecimento da contaminação de urânio ocorrida em Lagoa Real a partir da reportagem publicada pelo Estado, em 22 de agosto. 

Nesta quarta-feira, 28, o ministro do TCU Bruno Dantas anunciou que a corte de contas também vai fiscalizar as operações da INB na região e acompanhar os desdobramentos do caso que têm sido tratados pelo Ibama. 

Adutora. Rui Costa disse que, paralelamente, o governo baiano trabalha para estender uma adutora de água do Rio São Francisco até os municípios que estão no entorno da mina de urânio, na região de Lagoa Real. Com essa medida, disse ele, não seria mais necessário usar água de poços na região.

"Levaremos a adutora de água do São Francisco para não precisar fazer a coleta de água na região. Já chegamos com a adutora em Guanambi (município vizinho) e estamos chegando com ela agora em Caetité para atender os municípios da região. Ela terá água do São Francisco, sem precisar pegar água do subsolo", disse Rui Costa.

No mês passado, o governo baiano anunciou quer usar recursos de uma operação de crédito firmada com o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird, na sigla em inglês) para iniciar o programa de monitoramento de águas profundas na região de Lagoa Real e Caetité. Um termo de referência para oficializar o pedido será encaminhado ao Bird.

O plano é utilizar recursos de um acordo firmado ainda em 2012 entre o governo baiano e o Banco Mundial, o qual prevê, entre outras ações, que o Inema receba US$ 12,8 milhões para programas ligados à água. O projeto de monitoramento deverá custar US$ 1 milhão, o equivalente a R$ 3,9 milhões, e dará início ao programa de fiscalização das águas profundas na região.

A medida faz parte das mobilizações do governo baiano, que tenta dar uma resposta efetiva às denúncias de contaminação de água por urânio. No início deste mês, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), órgão do governo da Bahia responsável pela gestão de águas no Estado, confirmou a presença de alto teor de urânio em um poço da zona rural de Lagoa Real, no sudoeste baiano, em volume quatro vezes acima do limite tolerado para o consumo humano.

O governo anunciou que vai instalar uma Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) em Caetité. Segundo a Secretaria de Saúde da Bahia, quando o plano passou a ser desenhado, em 2012, dados já apontavam que havia um volume de pessoas com câncer superior à média de toda Bahia.

Mais conteúdo sobre:
Urânio Bahia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.