Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Governo baiano admite maior incidência de câncer em região contaminada por urânio

Dados de 2012 da Secretaria de Saúde já apontavam um volume de pessoas com a doença superior à média de todo o estado da Bahia

André Borges, O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2015 | 18h27

BRASÍLIA - A decisão do governo da Bahia de instalar uma unidade especializada em tratamento de câncer no município de Caetité, no sudoeste do Estado, está diretamente associada ao crescente número de casos da doença identificados na região. A informação é da Secretaria de Saúde da Bahia.

Em entrevista ao Estado, a diretora da atenção especializada da Secretária de Saúde, Alcina Romero, afirmou que, ainda em 2012, quando o projeto de instalar uma Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) em Caetité passou a ser desenhado, dados já apontavam que havia um volume de pessoas com a doença superior à média de toda Bahia.

"Por que escolhemos Caetité? Porque se observa que, há um bom tempo, que essa região apresenta um número de novos casos de câncer superior ao número de casos de todo o Estado", disse Alcina, que é responsável pela gestão de todas as unidades de tratamento de câncer em operação na Bahia. "Há uma prevalência. O câncer tem um comportamento diferente nessa região."

Os dados da Secretaria de Saúde apontam que, quando analisados os óbitos em toda a Bahia, as doenças ligadas ao aparelho circulatório (ataque cardíaco e derrame) são a primeira causa de mortalidade, seguidas por "causas externas" (homicídios e acidentes). Em terceiro lugar, e em quantidade 30% inferior à segunda colocada, estão os casos de câncer.

Na chamada "macrorregião" de Guanambi, porém, os casos de câncer são a segunda causa de mortes, conforme apontam os dados da Diretoria de Informações em Saúde da Bahia. No ano de 2012, ocorreram 1.111 óbitos nessa região. Os ataques cardíacos e derrames seguiram na liderança das causas, mas os homicídios e acidentes dividiram o segundo lugar, com 150 ocorrências para cada tipo de ocorrência. 

A macrorregião de Guanambi engloba diversos municípios, entre eles o de Caetité, onde está em operação a única mina de urânio da América Latina; e Lagoa Real, onde foi detectada a contaminação da água de um poço com alto teor do material radioativo. 

O problema é antigo e, nos últimos anos, foi alvo de diversas denúncias por organizações ambientais. A estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que opera em Caetité desde 2000, sempre negou haver qualquer tipo de contaminação na região, seja por meio natural ou em decorrência de suas atividades. A empresa sempre garantiu que, apesar de haver presença de material radioativo na água da região, está sempre ficou abaixo do limite aceito pelos órgãos de controle.

A própria INB, no entanto, já havia identificado, em outubro do ano passado e em março deste ano, um poço com presença de urânio mais de quatro vezes o tolerável para consumo humano. A informação, no entanto, foi omitida dos órgãos estaduais e federais.  A empresa alega que não tinha responsabilidade pelo caso, porque o poço está fora da área de sua responsabilidade, a 20 km da mina.

Complexo. "Se você me perguntar se esses casos de câncer têm ligação direta com a questão da implantação da mineração e produção de urânio, eu lhe digo que, até hoje, nenhum estudo que tenha nos chegado oficialmente comprova isso. Mas se vemos que temos um número maior de câncer nessa região, nós podemos inferir", diz Alcina Romero. 

Caetité e região não dispõem hoje de nenhuma estrutura para tratamentos de câncer. Pacientes que necessitem de tratamento precisam buscar apoio em Vitória da Conquista, a cerca de 300 km, Itabuna (500 Km), Salvador (600 Km ) ou até mesmo São Paulo (1.400 km).

A nova unidade, que será instalada no hospital público da cidade, prevê que seja realizado o diagnóstico de tipos de câncer mais prevalentes, como mama, útero, próstata, estômago e intestino. O local deverá oferecer internação hospitalar e pronto-atendimento a pacientes, além de realizar cirurgias nessas especialidades e tratamentos por quimioterapia. A radioterapia não está contemplada. 

"Já houve a captação de uma equipe para isso. Ainda não temos uma data sobre quando o serviço vai começar efetivamente, mas acredito que será no ano que vem. Câncer é tempo. A sobrevida que se tem com a doença está ligada ao tempo do diagnóstico e do tratamento. Então é importante estar mais próximo. Vamos correr com isso, esforço não vai faltar", disse Alcina.

Em relação a equipamentos, a previsão inicial de investimentos é de cerca de R$ 2 milhões de investimento. Quanto aos gastos operacionais, a unidade deverá custar entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão por mês. "Além de recursos do governo estadual, deverão entrar financiamentos do município e da União. É um projeto tripartite."

Contaminação. A estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) afirma que "as pesquisas já realizadas em torno desta questão [impacto da radiação sobre a saúde das pessoas] em diversas partes do mundo demonstraram que o urânio natural não contribui para o aumento do número de casos de câncer ou de qualquer outra doença decorrente da

radiação do urânio". 

A estatal destaca ainda que "o urânio está presente na crosta terrestre desde a formação do planeta Terra" e que "a atividade de mineração não aumenta a radiação emitida por esse mineral porque ela trabalha com o urânio em estado natural".

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