Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Bahia terá unidade de tratamento de câncer em área contaminada

A mineração de urânio de Caetité ocorre a apenas 20 km do local onde foi detectada a presença de alto teor da substância em água

André Borges, O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2015 | 14h18

BRASÍLIA - O governo baiano anunciou que vai implantar um centro especializado em tratamentos de câncer no município de Caetité (BA), onde está em atividade a única mina de exploração de urânio em toda a América Latina. A decisão foi confirmada na última sexta-feira pela Secretaria da Saúde do governo da Bahia.

A mineração de urânio de Caetité ocorre a apenas 20 km do local onde foi detectada a presença de alto teor de urânio na água de um poço, no município vizinho de Lagoa Real, conforme denúncia publicada pelo Estado no dia 22 de agosto. Desde então, o governo baiano tem se mobilizado para dar início a um programa de monitoramento constante da qualidade da água consumida pela população rural do município. 

Em visita a Caetité na semana passada, o secretário da saúde Fábio Vilas-Boas visitou as instalações do hospital municipal e anunciou a implantação de uma Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon). O secretário disse que as instalações estarão prontas em 2016 e que se tornarão referência de tratamento para a região.

Em sua visita, Vilas-Boas passou também pelos municípios de Antas e Cícero Dantas. A visita foi acompanhada de represente de relações institucionais da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e da diretora de controle das ações e sistemas de saúde (Dicon), Ana Paula Andrade.

Não há números precisos sobre os casos de câncer da região de Caetité e Lagoa Real, por conta das dificuldades de se levantar essas informações, já que muitos moradores da região são obrigados a buscar tratamentos em Vitória da Conquista e Salvador, ou mesmo em São Paulo.

As causas de câncer na região também são controversas. A estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que explora urânio na região rural de Caetité desde 2000, afirma que realiza todos os procedimentos de segurança relacionados ao tratamento do metal e que não há nenhuma relação com os casos de contaminação e suas atividades na região. 

Na reportagem publicada em agosto, o secretário municipal de Meio Ambiente de Lagoa Real, Willike Fernandes Moreira, disse que os casos de câncer passaram a ser tão frequentes no município, que atualmente absorvem a maior parte dos recursos que a prefeitura dispõe para a área de saúde. “É uma situação grave. Nós não temos dados oficiais de câncer na região, mas sabemos que está matando muito. Já são uma rotina de assistência para a prefeitura, infelizmente. Às vezes, conversamos com os motoristas das ambulâncias. Eles ficam abismados com o número de biópsias”, disse o secretário. “Há mais de 15 anos não se ouvia falar nisso. Agora é o tempo todo, mas a causa disso a gente não sabe qual é. Não podemos culpar ninguém, nem mesmo o urânio. Mas que é algo muito preocupante, isso é.”

Caetité tem cerca de 60 mil habitantes. Em Lagoa Real, são 15 mil pessoas, quais 80% vivem na zona rural. Informações obtidas pelo Estado apontam que, até julho, pelo menos 76 pessoas residente em Lagoa Real fazem tratamento de algum tipo de câncer fora do município. 

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou um relatório em abril de 2014 sobre o levantamento de casos de câncer na região, no qual afirma que teve dificuldades em coletar dados oficiais. O estudo, que teve participação da organização francesa Commission de Recherche et d’Information Indépendantes sur la Radioactivité (Criirad), registrou oficialmente 21 casos de câncer na região da mina de urânio entre 2005 e 2014. Outros 113 casos foram levantados desde o início da exploração da mina, em 2000, mas não puderam ser confirmados, por causa de restrições, como falta de documentação fornecida pela família. 

Um novo estudo realizado pela Criirad sobre o assunto deve ser divulgado hoje, em evento realizado em Caetité.

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