Governo bate cabeça e pista é aberta e fechada em 6 min

Aeronáutica, Infraero e Anac não se entendem sobre quem deveria autorizar reabertura de Congonhas

Camilla Rigi, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2028 | 00h00

A reabertura da pista principal do Aeroporto de Congonhas, na zona sul, foi marcada por confusão e desentendimento entre três órgãos do governo que coordenam o setor aéreo do País. Desde o dia 17, a pista recém-reformada ficou fechada para perícia, depois que um Airbus A320 da TAM tentou pousar, não conseguiu e se chocou com um prédio da TAM Express na Avenida Washington Luís, deixando 199 mortos. A liberação da pista, anunciada para ocorrer por volta de meio-dia de ontem, aconteceu às 12h20. Três minutos depois um Airbus A319 da TAM, vindo de Porto Alegre, pousou. Os passageiros não foram informados de que eram os primeiros a pousar desde o acidente. "O que nós sabíamos é que essa pista deveria ser liberada mais ou menos no horário do nosso pouso. A gente fica esperando que o avião pare, fica aquele barulho de reverso... Mas, parou. Aí a gente deu aquela aliviada", confessou o coordenador técnico Rogério Barbosa. Logo em seguida, um avião da Pantanal decolou. Mas às 12h26 veio a notícia que a pista teria sido novamente fechada. A alegação era que faltava um Notam (documento que notifica os aeronavegantes sobre rotas e orientações de vôo). Foi então que começou o impasse. A Infraero informou que o documento é emitido pela Aeronáutica e quem autoriza pousos é a torre de controle. Mas, oficiais do Serviço Regional de Proteção ao Vôo de São Paulo (SRPV-SP) ouvidos pelo Estado, afirmaram que houve uma ligação de uma pessoa da Infraero para a torre, dizendo que estava tudo autorizado. "Foi uma atitude precipitada de quem liberou as operações, mas logo que o chefe da torre soube que não havia o Notam mandou parar tudo", contou um oficial, que pediu anonimato. Pela legislação aeronáutica, o Notam deve ser emitido pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), após um pedido do antigo Departamento de Aviação Civil (DAC), hoje substituído pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O pedido, segundo os oficiais, não teria chegado até o meio-dia de ontem. A Assessoria da Anac, contestou, dizendo que, assim que recebeu a informação da Infraero de que a pista estava apta para operar, por volta de 10 horas, repassou a informação ao Decea, por meio do Centro Geral de Notam (CGN). O novo Notam, com autorização do uso da pista principal em dias de pista seca foi expedido às 14h43. Ao mesmo tempo a torre foi informada de que poderia direcionar os aviões para via principal. O primeiro pouso depois da segunda abertura ocorreu às 14h52, quando uma aeronave da TAM vinda de Navegantes, em Santa Catarina, tocou o solo. Quando tudo parecia entrar nos eixos, a Infraero pediu para interromper as operações na pista para que seus técnicos, acompanhados do pessoal do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), avaliassem o trabalho que já foi feito de grooving (ranhuras que ajudam no escoamento da água). Entre 16h40 e 16h57, não houve pousos e decolagens na pista principal. Os laudos do IPT, até o momento, não apresentam irregularidades De acordo com o Notam, que segue uma orientação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes (Cenipa), em caso de chuva forte a pista deve ser fechada. Segundo o SRPV-SP desde a primeira abertura da pista até as 18 horas de ontem foram realizados 56 pousos e decolagens no local. Desde o início de 2006, a Infraero anunciava a reforma da pista principal. O grande problema da via era o acúmulo de água causado pelo emborrachamento do asfalto, o que possibilitava a formação de poças d?água. Mas só depois de três ocorrências mais relevantes de derrapagem na pista, a estatal fez um contrato de emergência no valor de R$ 19,9 milhões para a obra. A reforma começou no dia 14 de maio e no dia 29 de junho a pista foi liberada para pousos e decolagens. Com pavimento, sinalização e balizamento novos, a pista ainda não tinha o grooving. Mesmo assim, a Infraero garantia que o índice de atrito, média de 0,7, era superior aos padrões internacionais e permitia a reabertura do local com total segurança. Após o acidente com o Airbus, no dia 17, a falta de grooving foi uma das primeiras causas levantadas para explicar o acidente, o que ainda não foi confirmado, pois a investigação do Cenipa deve levar 10 meses. Chovia fraco no dia que o avião se chocou contra o prédio.Como a pista ficou parada depois do acidente para perícia, que teve de retirar algumas amostras do asfalto, a Infraero resolveu iniciar o grooving juntamente com o fechamento dos buracos feitos pela Polícia Federal e a limpeza da pista. O trabalho começou na quarta.

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