Governo cede a pressões, afirmam especialistas

Projetos teriam sido esquecidos por interesses eleitorais e das empresas

Rodrigo Brancatelli e Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2012 | 00h00

O problema não é tanto a falta de planejamento, mas sim o planejamento jogado fora. Para especialistas ouvidos pelo Estado, o enorme número de aeroportos ociosos é fruto de pressões políticas e comerciais feitas pelas prefeituras, governos estaduais e companhias aéreas. "Na década de 60 e 70 foi feito um amplo estudo de necessidades e prioridades para a infra-estrutura aeroportuária do País", diz o engenheiro Cláudio Jorge Pinto Alves, professor da Divisão de Engenharia de Infra-estrutura Aeronáutica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). "Só que onde isso foi parar? No lixo. O governo federal cedeu às pressões das companhias aéreas e dos principais currais eleitorais."Alves cita como exemplo os aeroportos de São Paulo. Cumbica, em Guarulhos, foi construído na década de 80 para servir de rota dos vôos domésticos. Viracopos, em Campinas, é que seria o principal aeroporto internacional do Estado. "Quando foi inaugurada a Rodovia dos Bandeirantes, a faixa do meio foi deixada livre para que fosse construído um trem-bala ligando o aeroporto de Viracopos ao centro de São Paulo", diz o professor. "Só que, por politicagem, Viracopos foi esquecido, ficou ocioso, e tiveram de fazer obras de emergência em Cumbica para ele receber os Boeings internacionais. Foi um arremedo para atender a pessoas que só pensavam no lucro."O resto do País seguiu essa mesma lógica. Não é por menos que os Estados que têm mais representatividade política, como São Paulo, Minas e Bahia, são os que mais têm aeroportos públicos. "Ainda hoje vemos investimentos desnecessários sendo feitos em lugares que não são prioridades, por pura politicagem", diz Respício Antonio do Espírito Santo, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.O Tribunal de Contas da União (TCU) já apontou irregularidades em 10 dos maiores aeroportos do País desde 2006, quando passou a fiscalizar os investimentos da Infraero. O Ministério Público junto ao TCU aponta que praticamente todas as obras de ampliação e recuperação têm sobrepreço e editais de licitação que limitam a participação de concorrentes. "São as mesmas poucas empresas. É muito difícil acreditar que não haja conluio. O setor foi capturado, a definição de prioridades não está a serviço da população", disse o procurador-geral Lucas Furtado. As discussões com o TCU e o Ministério Público têm gerado paralisações, a última delas no aeroporto de Santa Genoveva (GO), por suspeita de superfaturamento e irregularidades na licitação.Quando instalado em local adequado, no entanto, com bom planejamento e boa infra-estrutura, um aeroporto pode turbinar o desenvolvimento de uma cidade. É o caso de Caldas Novas, maior manancial hidrotermal do Brasil, a 160 quilômetros de Goiânia (GO). Para incentivar o turismo local, principal fonte de renda da cidade, o governo estadual e a prefeitura investiram cerca de R$ 3 milhões para a construção de um terminal no Aeroporto de Caldas Novas - que tinha apenas uma pista de 2 quilômetros construída na década de 80, e ociosa desde então. "Em apenas cinco anos, o aeroporto já não dá mais prejuízo", diz Tito Duarte de Castro, o administrador do local e assessor da Secretaria Municipal de Turismo de Caldas Novas. "Hoje, o aeroporto emprega 150 pessoas diretamente. Além disso, o turismo na cidade cresceu 25%. Sem o aeroporto, Caldas Novas ia ser engolida por outro destino turístico."

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