Governo deve indenizar famílias de presos mortos em MG

Motim reacende o debate sobre a grande quantidade de presos, muitos já condenados, nas carceragens

MILTON F.DA ROCHA FILHO, Agencia Estado

24 Agosto 2007 | 12h05

O secretário de Segurança Pública de Minas Gerais, Maurício Campos, admitiu que é possível as famílias dos presos mortos em Ponte Nova (MG) "pleitearem indenização considerando que são presos sob custódia do estado". Disse ainda que "o Estado vai assistir as famílias desde já por sua própria iniciativa como forma de conforto e, naturalmente, reparação a uma perda que não se justifica".   Veja também: Presos põem fogo em cadeia e 25 morremFamílias ficam sem notícias Aécio abre processo para apurar mortes em MG   Na madrugada de quinta-feira, 23, 25 presos da Cadeia Pública de Ponte Nova, na Zona da Mata mineira, morreram queimados durante um motim envolvendo grupos rivais. Por volta de 1 hora, as vítimas foram encurraladas na cela 8 da cadeia por detentos de uma cela vizinha, que atearam fogo em um colchão encharcado com líquido inflamável, provocando um grande incêndio, que só foi controlado cerca de uma hora depois. Como a cidade não possui Corpo de Bombeiros, um caminhão-pipa foi utilizado para controlar o fogo, que já havia tomado conta de boa parte do segundo andar do prédio."Com uma hora, conseguimos conter o tumulto, mas não tínhamos condições de entrar no prédio sem apagar o incêndio, sem o rescaldo e diminuir a quantidade de fumaça, que era enorme", disse o delegado regional Luiz Carlos Chardouni.De acordo com as investigações, os autores do ataque tinham pelo menos uma arma de fogo. Os presos serraram o cadeado da cela 9, alcançando o corredor e iniciando o motim.Com o fogo, o grupo se refugiou no pátio da cadeia. Moradores da vizinhança disseram terem ouvido diversos disparos durante o tumulto. A Polícia Militar teve de pedir a ajuda de outros batalhões para conter o motim. O tenente-coronel Geraldo Henrique, do 11º Batalhão, chegou a dizer que dois carcereiros tentaram apartar o ataque, mas "foram recebidos à bala".Os corpos foram levados para o Instituto Médico-Legal (IML) em Belo Horizonte para a identificação. Até a noite de quinta-feira, no entanto, nenhum  havia sido identificado. Os familiares dos presos se revoltaram com a falta de informações. Desde a madrugada eles se concentravam na porta da cadeia. "Muitos (corpos) ficaram irreconhecíveis, ficou difícil dizer quais eram os presos", disse o delegado.Superlotada, a cadeia, com capacidade para 87 presos, abrigava 173 no momento da confusão. Segundo a Secretaria de Defesa Social (Seds) de Minas, foi lavrado auto de flagrante indicando 20 detentos que seriam os líderes do motim. O alvo principal do grupo seria Cleverson Alexandre da Cruz, o Clesinho, preso da cela 8 e rival do traficante Wanderson Luiz Januário, o Biju.Wanderson chegou a ficar preso na cadeia pública, mas depois de liderar um princípio de rebelião foi transferido em 27 de junho para a cidade de Além Paraíba. De acordo com o representante da Pastoral Carcerária, Gilson de Oliveira, as "gangues'' comandadas pelos rivais costumavam promover toque de recolher e tiroteios em bairros de Ponte Nova. Desativação de Ponte Nova Após a tragédia, o governo iniciou a desativação da cadeia. Até o início da noite, 113 presos haviam sido transferidos para unidades prisionais em nove cidades mineiras. O motim em Ponte Nova reacendeu o debate sobre a grande quantidade de presos, muitos deles condenados, nas carceragens de Minas.   No final de 2005, causou enorme polêmica as decisões do juiz Livingsthon José Machado, que determinou a soltura de presos de distritos policiais de Contagem, alegando que eles haviam sido julgados e que deveriam estar em penitenciárias. O juiz acabou afastado. Em nota, a Seds informou que, 16 mil presos continuam sob guarda da Polícia Civil. O governo mineiro justifica o fato afirmando que enfrenta um histórico déficit no número de vagas no sistema prisional.

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