Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Governo do AM identifica e pede transferência de 8 lideranças da FDN

Homens ligados à Família do Norte seriam responsáveis pela rebelião que resultou em 56 mortes; ministro da Justiça diz que Estado sabia do plano de fuga

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial de O Estado de S. Paulo

04 Janeiro 2017 | 13h30
Atualizado 05 Janeiro 2017 | 08h14

MANAUS - A força-tarefa da Polícia Civil do Amazonas que investiga o massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) identificou oito lideranças da facção Família do Norte (FDN), acusada de coordenar o assassinato de 56 detentos na unidade. O secretário de Segurança Pública do Amazonas, Sérgio Fontes, informou nesta quarta-feira, 4, que deve encaminhar ao Ministério da Justiça o pedido para transferência de todos eles a presídios federais; as identificações dos envolvidos não foram reveladas.

Para o secretário da Segurança Pública do Estado, Sérgio Fontes, tem de haver cuidado na seleção de presos que serão transferidos. "Não adianta mandar muitos, mandar um prego porque quando voltar deixa de ser prego e volta como liderança. É uma ferramenta importante, detentos morrem de medo de ir, porque lá se trata preso como preso", disse. A unidade federal para a qual serão enviadas as lideranças não é divulgada previamente.

Os investigadores se detêm em uma primeira fase na análise da gravação do circuito interno de segurança do presídio, que poderá oferecer provas de quem cometeu cada assassinato. A Secretaria não descarta que ainda haja armas em posse dos presos, já que as imagens mostram diversos artefatos que não foram apreendidos; ao final da rebelião, os detentos devolveram quatro pistolas e uma espingarda calibre 12. A perícia mostrou, no entanto, que mais armas curtas e ao menos mais uma arma longa aparecem nas gravações. Celulares apreendidos deverão ter a memória vasculhada em busca de novas imagens do massacre.

Além disso, os investigadores esperam poder colher depoimentos de presos que testemunharam o ataque, que se concentrou em um dos setores da unidade que abriga mais de 1,2 mil detentos atualmente. Dos 184 que fugiram no domingo passado, 58 haviam sido recapturados até a noite desta quarta.

As autoridades acreditam que a parte da unidade de regime semiaberto vizinha ao Compaj, que abriga presos em regime fechado, tenha acabado alimentado o motim com as armas. Para apurar essa hipótese, o secretário de Segurança Pública do Amazonas, Sérgio Fontes, disse ao Estado nesta quarta-feira que agentes públicos podem estar envolvidos nesse processo de facilitação. "É perfeitamente viável essa possibilidade (de que agentes tenham colaborado com presos)", disse. 

O reforço policial nos últimos dois anos principalmente na região metropolitana levou o ritmo de prisões a mais do que dobrar, segundo estimou Fontes, o que contribuiu para agravar a situação considerada já precária dos presídios. Para evitar que os que tenham cometido crimes menos graves acabem se transformando em massa de manobra da facção, a administração quer agilizar a separação de detentos de acordo com a gravidade do delito cometido. Mas, para isso, é necessária a construção de novas unidades.  

"Imagine alguém entrando no sistema agora, tendo cometido um crime, e chegando lá alguém bate no ombro e pergunta, depois do que aconteceu: 'E aí, filho, você vai para que facção?' O cara vai fazer o quê? É lógico que ele vai para a facção que matou 56 pessoas e ele vai fazer tudo que for mandado. Depois dessa demonstração, é a mesma lógica do Estado Islâmico. Faço, faço com muita violência e mostro o que eu fiz", avaliou Fontes.

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