Governo do DF propõe mudar traçado de Brasília

Um projeto do governo do Distrito Federal quer passar a borracha em características da capital federal determinadas, nos anos 50, pelo urbanista Lúcio Costa. Proposta enviada à Câmara autoriza a venda de cerca de 500 mil metros quadrados no Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte e Sudoeste, originalmente destinados à instalação de escolas públicas e áreas de lazer e esporte. Mais de 40 anos depois da fundação de Brasília, os terrenos ainda estão desocupados. Das 32 unidades de vizinhança definidas no Plano Piloto, apenas uma foi construída. A cada quatro superquadras residenciais estava prevista uma área com clube social mantido pela comunidade, biblioteca, escola, supermercado e igreja. Construída no início da década de 60, a unidade que envolve as superquadras 107, 108, 307 e 308 na Asa Sul não teve o modelo propagado para as demais regiões da capital. O terreno das quadras 206 e 207 Sul é um exemplo do abandono. Sem equipamentos, poucos moradores se arriscam a usar os aparelhos de ginástica da área. Agora, em vez de escolas e clubes públicos, a área pode dar lugar a shopping centers, academias e escolas particulares. Na Comissão de Assuntos Fundiários da Câmara Legislativa do Distrito Federal, o projeto do executivo poderá entrar amanhã na pauta de discussão. A primeira pessoa a ver o projeto do Plano Piloto é contra a proposta de venda dos terrenos. Filha do urbanista que desenhou a cidade, a arquiteta Maria Elisa Costa diz que a preservação do traçado original não é "frescura" intelectual, mas a garantia da qualidade de vida. "Brasília corre risco de se acabar pelas beiradas", afirma. "É preciso uma vontade nacional; o País ainda não se apropriou de Brasília como deveria." Para o arquiteto Haroldo Pinheiro, um "faroeste" está marcando a ocupação da cidade. "Se a proposta passar pela Câmara, uma das características mais importantes da cidade estará prejudicada", alega. Representante do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Pinheiro ilustra casos de áreas no Distrito Federal que acabaram, irregularmente, nas mãos de empresas da construção civil. O espaço destinado a chácaras, em volta do Plano Piloto, é um exemplo. Muitos terrenos, projetados para criar um cinturão verde, se transformaram em condomínios residenciais. A venda dos terrenos, proposta pela Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap), causou mal-estar em outros setores do governo do Distrito Federal. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano já havia marcado o seminário Brasília - Passado, Presente e Futuro para discutir justamente a preservação do desenho de Lúcio Costa. "A gente não nega a autoria, mas não é praxe da casa se manifestar sobre matéria que está no Legislativo", afirmou o assessor da Terracap, Artur Godim.

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