WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Governo e associações da PM fazem acordo para encerrar motim no ES

Mulheres ainda prometem resistir e veem acordo como traição

Márcio Dolzan e Vinícius Rangel, Enviado especial

10 Fevereiro 2017 | 21h04

VITÓRIA - O governo do Estado e quatro associações da Polícia Militar anunciaram nesta sexta-feira, 10, o fim do motim nos quartéis do Espírito Santo, após a cúpula da Segurança Pública endurecer o discurso e indiciar 703 PMs por crime de revolta. O movimento, caracterizado por mulheres que bloqueiam a saída das unidades com manifestações, foi copiado nesta sexta em 27 dos 89 batalhões e comandos do Rio e no Pará já se desenha iniciativa semelhante. As mulheres capixabas não falam em fim dos protestos e veem “traição” das entidades. O Palácio do Planalto, que se manifestou pela primeira vez nesta sexta, identificou risco de atos semelhantes na Paraíba e no Rio Grande do Norte.

Os presidentes da Associação de Cabos e Soldados (Acs), da Associação dos Subtenentes e Sargentos da PM e Bombeiro Militar (Asses), do Clube dos Oficiais e Associação dos Bombeiros Militares (ABM) assinaram documento que prevê o fim do movimento hoje às 7 horas. O major Rogério Fernandes Lima, do Clube dos Oficiais, alegou que as associações estavam com dificuldade de diálogo com as mulheres do movimento. 

Segundo ele, caberia a cada militar agora orientar os familiares a saírem da frente dos batalhões. Caso isso não ocorra, poderá haver punições aos militares. “ Não queríamos ter chegado a esse ponto, mas esse acordo precisa se cumprido”, disse. “Chegamos a um momento difícil em que poderia acontecer um confronto entre os nossos militares ( policiais) e as Forças Armadas (que passaram a patrulhar as ruas).” 

Reação. Ao saberem da notícia do possível “fim da greve”, as mulheres que estão acampadas na frente do 10.º batalhão da PM em Guarapari ficaram revoltadas. De acordo com elas, que lideram o movimento no Estado, nada foi oferecido na reunião, além da criação de grupos de estudo para benefícios e promoções. “O movimento é liderado por nós mulheres e não vamos sair daqui tão cedo. As associações apenas traíram os próprios militares ”, disse uma das líderes. Posição semelhante foi dada pelas mulheres de Vitória.

A decisão capixaba de endurecer com os agentes ocorreu justamente após o fracasso nas negociações com as famílias dos policiais. A pena prevista no indiciamento por motim pode chegar a 20 anos de prisão. Pelo acordo, os PMs e bombeiros que voltarem ao serviço não sofrerão punições administrativas disciplinares - o processo militar, porém, está mantido.

“Está iniciado o processo de responsabilização, tanto no aspecto militar quanto criminal”, declarou mais cedo André Garcia, secretário estadual de Segurança Pública do Espírito Santo, durante entrevista coletiva. Ele disse ainda que “com certeza” o número de PMs indiciados iria “aumentar muito”, atingindo sobretudo agentes em início de carreira. “Criamos uma força-tarefa na corregedoria para dar celeridade, com isenção e sem perseguição. Quem for indiciado daqui para a frente, ou for iniciado um processo administrativo, terá seu ponto cortado desde sábado. Do sábado pra frente, a folha da Polícia Militar está bloqueada.” 

O secretário falou ainda em reconstruir a PM - “pedra sobre pedra” -e levantou a possibilidade de responsabilizar as mulheres dos policiais. “Estamos identificando (as líderes) com imagens. Elas serão encaminhadas para o Ministério Público Federal, que solicitou a identificação das responsáveis por esse movimento. Elas serão responsabilizadas pelos custos das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança.”

Na véspera, representantes do governo do Espírito Santo se reuniram por dez horas com as mulheres de policiais militares. O encontro terminou por volta da meia-noite, sem solução para a greve. O pedido dos policiais era de reposição salarial de pelo menos 43%. O governo estadual se manteve irredutível. A alegação é de que o aumento pretendido pela categoria representaria um custo adicional de R$ 500 milhões nos gastos com pessoal, o que levaria a um rombo nos cofres do Estado.

Outros Estados. O Palácio do Planalto estava acompanhando de perto a situação tanto no Espírito Santo quanto no Rio, e temia pelos caminhos que poderiam ser seguidos. Havia preocupação ainda com a possibilidade de esses movimentos desencadearem um “efeito cascata” já que há movimentações semelhantes começando de uma maneira mais forte nas Polícias Militares do Pará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Nesta sexta, por exemplo, houve atos na frente de quartéis em três cidades paraenses. 

ENTENDA A CRISE NO ESPÍRITO SANTO

Familiares e amigos de policiais militares no Espírito Santo começaram, na noite de sexta-feira, 3, a fazer manifestações impedindo a saída das viaturas para as ruas e afetando a segurança dos municípios.  Sem reajuste há quatro anos, os PMs reivindicam aumento salarial e melhores condições de trabalho.

O motim dos policiais levou a uma onda de homicídios e ataques a lojas. Com medo, a população passou a evitar sair de casa e donos de estabelecimentos fecharam as portas. Os capixabas já estocam comida

Na segunda-feira, 6, a prefeitura de Vitória suspendeu o funcionamento das escolas municipais e de  unidades de saúde. 

Também na segunda, o governo federal autorizou o envio da Força Nacional e das Forças Armadas para reforçar o policiamento nas ruas de cidades do Espírito Santo. Apesar do reforço, o clima de tensão se manteve no Estado. 

A morte de um policial civil na noite de terça-feira, 7, motivou uma paralisação da categoria na quarta, agravando ainda mais a crise de segurança no Espírito Santo. 

Após o fracasso nas negociações com policiais militares do Espírito Santo, o governo capixaba decidiu endurecer com os PMs e com as mulheres líderes do motim. No total, 703 policiais militares já foram indiciados por crime de revolta.

Transtorno. Nas ruas da Grande Vitória, bancos estão fechados. Para pagar contas, é preciso recorrer a locais como supermercados. Mas isso tem gerado enormes filas. 

“Estou cheia de contas para pagar, sem dinheiro e ainda falta comida em casa. Minha filha me pede para tomar leite e nem isso tenho para oferecer a ela", contou a empregada doméstica Daniela Nascimento.

A família está sob alerta. “Quando ouço qualquer barulho, eu me escondo com minha filha. É desesperador”, afirmou Daniela, de 44 anos. 

A Universidade Federal do Espírito Santo teve até mesmo de adiar a matrícula presencial de estudantes aprovados pelo Sistema de Seleção (Sisu), prevista para semana que vem.

ENTENDA A CRISE NO ESPÍRITO SANTO

Familiares e amigos de policiais militares no Espírito Santo começaram, na noite de sexta-feira, 3, a fazer manifestações impedindo a saída das viaturas para as ruas e afetando a segurança dos municípios.  Sem reajuste há quatro anos, os PMs reivindicam aumento salarial e melhores condições de trabalho.

O motim dos policiais levou a uma onda de homicídios e ataques a lojas. Com medo, a população passou a evitar sair de casa e donos de estabelecimentos fecharam as portas. Os capixabas já estocam comida

Na segunda-feira, 6, a prefeitura de Vitória suspendeu o funcionamento das escolas municipais e de  unidades de saúde. 

Também na segunda, o governo federal autorizou o envio da Força Nacional e das Forças Armadas para reforçar o policiamento nas ruas de cidades do Espírito Santo. Apesar do reforço, o clima de tensão se manteve no Estado. 

A morte de um policial civil na noite de terça-feira, 7, motivou uma paralisação da categoria na quarta, agravando ainda mais a crise de segurança no Espírito Santo. 

Após o fracasso nas negociações com policiais militares do Espírito Santo, o governo capixaba decidiu endurecer com os PMs e com as mulheres líderes do motim. No total, 703 policiais militares já foram indiciados por crime de revolta

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