Governo é refém do varejo

Os sucessivos recuos da presidente Dilma Rousseff em questões que mobilizam a opinião pública, como o Código Florestal e a chamada MP da Copa, ao mesmo tempo em que prendem o governo a um varejo improdutivo, confirmam o diagnóstico do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de que falta ao País um projeto, um norte.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2011 | 00h00

Sem rumo definido, o recurso do governo no enfrentamento com sua base aliada restringe-se à administração, a conta-gotas, do arsenal de cargos e verbas que mobilizam os parlamentares, num jogo assistido por uma oposição que a cada dia exibe mais inapetência para seu ofício. Seria uma oposição "viciada em poder", como definiu o veterano Guilherme Palmeira.

Sem o gosto pelo exercício da política que caracteriza seus antecessores, Fernando Henrique e Lula, a presidente Dilma Rousseff mantém com o poder uma relação de estresse. Quer resultados gerenciais de curto prazo para medidas que demandam negociações políticas intensas no âmbito de uma aliança gigantesca, em que os dois partidos principais vivem confronto permanente.

Não exerce o poder de convencimento a que se referiu FHC numa das muitas solenidades em homenagem aos seus 80 anos, porque lhe falta do que convencer a base aliada. Opera em cima de ações herdadas do governo anterior, no qual viajava na cabine do piloto.

Uma grande operação de varejo, ora empacada numa MP que denuncia a imprevidência do governo de continuidade, que capitalizou eleitoralmente a escolha do Brasil como sede da Copa de 2014 e deixou para depois as dificuldades inerentes a essa escolha.

Inércia aparente

Há outra interpretação para o comportamento da oposição, que explica sua criticada inércia como uma aposta nos efeitos do enfrentamento do governo com sua base. A síntese, defendida pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG), é a de que o conflito na base dispensaria a oposição, por ora, de ações mais agressivas. Prova disso seria a ponte lançada pela presidente Dilma ao PSDB, materializada no reconhecimento do legado de Fernando Henrique Cardoso. No espaço de um semestre, Dilma passou da crítica ao elogio à maior expressão tucana, no mínimo para arrefecer o ânimo oposicionista. Não conseguiu isso de José Serra, seu adversário derrotado nas eleições, que divulgou à revelia do partido um documento com pesadas críticas ao governo na busca de afirmar-se candidato do partido em 2014, condição que disputa com Aécio.

Desconforto

Qualquer que seja a explicação do ministro da Defesa, Nelson Jobim, sua fala na homenagem a Fernando Henrique Cardoso confirma seu desconforto no governo. Ele já não exerce o cargo com o mínimo de prazer.

TV por assinatura

Com urgência já aprovada, o governo trabalha com a perspectiva de aprovar antes do recesso de julho o projeto de lei 116, que define as novas regras do setor de TV por assinatura. O líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), anunciou que pretende votá-lo na próxima quarta-feira, mesmo com a MP da Copa na pauta.

Limites

O projeto ainda enfrenta resistências, mas as teles e os produtores independentes nacionais pressionam pela votação imediata. Representantes dos radiodifusores querem, pelo menos, a garantia de que a presidente Dilma Rousseff não vetará o artigo 5º, que limita em 30% o capital total e votante das teles nas radiodifusoras. A contrapartida é que as concessionárias de radiodifusão não poderão deter mais de 50% do capital total e votante das teles.

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