''''Governo está respondendo politicamente ao acidente''''

Para especialista, não há justificativa técnica para reduzir tráfego de Congonhas, pois a demanda está em SP

O Estadao de S.Paulo

01 de dezembro de 2007 | 00h00

O uso de tarifas diferenciadas para transferir demanda entre aeroportos é uma prática muito comum no exterior e, segundo especialistas em transporte aéreo ouvidos pela reportagem, muito bem-vinda. Entretanto, os analistas desconfiam da eficácia das medidas do jeito que estão sendo apresentadas. "O uso de tarifa diferenciada para estimular tráfego é importante, mas precisa ver se a dosagem não foi exagerada", afirma o engenheiro aeronáutico Jorge Leal Medeiros, professor da área de transporte aéreo e aeroportos da Escola Politécnica da USP. Ele sugere, por exemplo, a redução das tarifas em Viracopos. "Deveriam adotar tarifa zero em Campinas. Isso sim atrai demanda."Para Medeiros, as medidas mostram que o governo está "visivelmente querendo diminuir o tráfego de Congonhas". "O governo está respondendo politicamente ao acidente. Já diminuíram a capacidade da pista, que era de 48 movimentos, para 32. Não há justificativa técnica. Isso significa que o governo estava permitindo uma loucura quando permitia 48 movimentos? Claro que não."Na sua opinião, em vez de aumentar tarifas em Congonhas, o governo deveria retomar a capacidade do aeroporto, "que foi reduzida por decreto". "Congonhas não pode fechar. Qual a alternativa que se oferece? As pessoas preferem embarcar perto de casa, mesmo que passem por desconforto em Congonhas. São Paulo é o maior centro de geração de demanda. Não é reduzindo as tarifas no Galeão que se vai levar a demanda do Rio para São Paulo."Na avaliação de Medeiros, a intenção do governo, ao taxar as companhias estrangeiras em Guarulhos, é desocupar o pátio durante o dia para aumentar a capacidade do aeroporto para vôos domésticos.Caso seja de fato adotado o aumento de tarifas em Congonhas e Guarulhos, Medeiros defende que a Infraero utilize os recursos para investir em pesquisa. "Deveriam pegar esse dinheiro para fazer planejamento de futuro", diz ele. "O governo contingenciou a verba do controle de tráfego aéreo e agora estamos correndo atrás do leite derramado. Temos de atender a demandas urgentes, mas precisamos pensar no que é importante, não só no que é urgente." Para o professor de transporte aéreo da UFRJ, Respício do Espírito Santo Junior, que também é presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Estratégicos e de Políticas Públicas em Transporte Aéreo, a medida resultará em aumento de tarifas para o passageiro e em problemas financeiros para as companhias menores. "As grandes têm condição de absorver esse custo, têm lastro para queimar, mas as pequenas vão sofrer."Apesar de ser favorável a uma política de cobrança diferenciada de tarifas, Espírito Santo afirma que o governo precisa justificar o aumento. "Se eu aumento 500%, tenho de justificar. Não posso aumentar só porque eu acho que as companhias estão ganhando muito dinheiro." Para Espírito Santo, o governo deverá ainda justificar para as aéreas estrangeiras esse aumento de 1200%. "O serviço não melhorou. Não compraram equipamentos mais modernos. Como se justifica isso?" MELHORIASNa opinião de Espírito Santo, o governo deveria direcionar o dinheiro que vier a ser arrecadado para melhorias no mesmo aeroporto. "A diferenciação tarifária é uma boa política, desde que se tenha a descentralização da administração e que cada aeroporto esteja livre para praticar a tarifa que desejar", diz ele. "Mas o dinheiro arrecadado em São Paulo vai entrar no caixa da Infraero e acabar servindo para pagar a iluminação em Rio Branco."

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