Governo ignora trégua com o PMDB e mexe em 208 cargos do segundo escalão

Levantamento feito pelo 'Estado' revela que do dia 5, quando a presidente Dilma Rousseff anunciou que estariam suspensas as nomeações de cargos para evitar conflitos entre petistas e peemedebistas, até ontem, a média foi de 23 nomeações por dia

João Domingos, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

A ordem da presidente Dilma Rousseff para que fossem suspensas as nomeações para o segundo escalão até fevereiro - uma forma de evitar novas brigas entre o PT e o PMDB por causa do domínio dos cargos - não virou lei nem dentro do Palácio do Planalto. Todos os dias o Diário Oficial da União traz novas nomeações para esses cargos, assinadas por uma única pessoa: o ministro Antonio Palocci, da Casa Civil, que despacha em um gabinete no quarto andar do Palácio.

Do dia 5, quando passou a valer a ordem de Dilma Rousseff, até ontem, Palocci assinou 208 nomeações e exonerações para cargos do segundo escalão, o que dá uma média de 23 por dia.

De acordo com o levantamento feito pelo Estado, boa parte dessas nomeações atende aos ministérios comandados pelo PT, como Comunicações e Saúde, que já foram do PMDB e agora se transformaram no ponto principal da discórdia dos dois partidos que comandam o Poder Executivo. Nesse período, a caneta de Palocci manteve-se ativa. Ele nomeou Swedenberger do Nascimento Barbosa para o cargo de secretário adjunto da Secretaria Geral da Presidência. Berger, como Swedenberger é conhecido, é um antigo militante do PT do Distrito Federal. Também assinou o ato que levou o petista Cleberson Carneiro Zavaski para a Secretaria Executiva do Ministério da Pesca.

Zavaski manteve um blog durante a campanha eleitoral, em que fazia análise sobre o desempenho da candidata Dilma Rousseff. Para a assessoria do ministro Fernando Pimentel (Indústria e Comércio), Palocci nomeou outro petista, Eduardo Lucas Silva Serrano e também para um cargo de assessoria do Ministério das Relações Institucionais, Duncan Frank Semple, outro petista histórico.

Origem. Foi por causa das nomeações do petista Helvécio Miranda Magalhães Jr. para a Secretaria de Atenção à Saúde (SAS), do Ministério da Saúde e de Mário Moysés para a presidência da Embratur que o PMDB ameaçou ir à guerra contra o PT.

Para pôr Helvécio Miranda na SAS, o PT desalojou de lá Alberto Beltrame, um protegido do PMDB. Essa secretaria conta com R$ 45 bilhões para gastar este ano, principalmente em repasses para o Sistema Único de Saúde (SUS). Trata-se de uma poderosa máquina geradora de votos para o partido que a comanda, pois o SUS está presente em todo o País.

A nomeação de Mário Moysés para a Embratur também ajudou a incendiar a já conturbada relação entre petistas e peemedebistas. Acontece que Moysés é ligado ao PT. Mas Antonio Palocci perguntou ao líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), se ele poderia transferi-lo da secretaria executiva do Ministério do Turismo - entregue aos peemedebistas - para a Embratur. Henrique Alves concordou. Logo depois, veio a demissão de Beltrame.

Traição. O PMDB acusou Palocci de traição. Henrique Alves bateu boca com o novo ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Foi quando as relações entre os dois partidos entraram na fase crítica que levou a presidente Dilma a anunciar a suspensão das nomeações - o que acabou ficando só nas intenções.

Depois de uma breve pausa para que todos fizessem as pazes, com reuniões entre a presidente Dilma, Palocci, o vice-presidente Michel Temer e o líder Henrique Eduardo Alves, as nomeações ficaram suspensas por pouco tempo.

Inicialmente, após o acerto, o Diário Oficial só publicou nomeações negociadas entre as duas siglas. Mas, com as nomeações feitas para o Ministério da Integração Nacional, em que integrantes do PSB varreram peemedebistas deixados lá pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima, o PMDB voltou a reagir.

Coube então ao ministro Antonio Palocci começar a nomear os indicados pelo PMDB, mais uma forma de aplacar a ira do partido. Hoje mesmo deverá tomar posse na presidência do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) Mauro Hauschild, indicado pela ala do PMDB liderada pelo presidente do Senado, José Sarney (AP) e pelo líder do partido no Senado, Renan Calheiros (AL). O cargo era dominado pelo PT, que comandava o setor desde a primeira posse de Luiz Inácio Lula da Silva em 2003.

A Previdência sempre entrou na cota dos ministérios estratégicos do PT. Mas, com Dilma, foi entregue ao PMDB numa tentativa de compensar as perdas nas Comunicações e na Saúde. A nomeação de Hauschild foi assinada no dia 14 por Palocci. O INSS é um dos mais cobiçados e está na cota do PMDB, que passou a ter o domínio do Ministério da Previdência, ao qual a autarquia é subordinada. Junto com Hauschild, Palocci nomeou Jaime Mariz de Faria Jr e Rogério Nagamine Costanzi para a Previdência Complementar e o Regime Geral de Previdência. No mesmo dia foram exonerados Murilo Francisco Barella e João Donadon, ligados ao PT.

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