REUTERS/Victor Ruiz Caballero
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Governo ignorou cartas sobre 17 ativistas mortos ou ameaçados em 2017, diz ONU

Relatores das Nações Unidas apontam que um defensor de direitos humanos é morto no Brasil por semana e que País lidera em número de execuções

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

15 Março 2018 | 11h09
Atualizado 16 Março 2018 | 00h44

GENEBRA - O governo brasileiro ignorou alertas das Nações Unidas sobre ameaças e mortes envolvendo pelo menos 17 ativistas de direitos humanos no País e suas famílias. As informações fazem parte de cartas confidenciais que relatores da ONU enviaram para Brasília no ano passado e obtidas pelo Estado. Nenhuma delas foi respondida, de acordo com o escritório de Direitos Humanos da ONU.

No dia 20 de novembro de 2017, relatores da ONU apontaram para as ameaças que seis defensores de direitos humanos estavam sofrendo em Minas Gerais. A lista enviada pela ONU inclui os nomes de Elias de Souza, Vanessa Rosa dos Santos, Reginaldo Rosa dos Santos, Lúcio Guerra Júnior, Patrícia Generoso e Lúcio da Silva Pimenta, assim como de seus parentes. 

De acordo com a ONU, eles teriam sido ameaçados depois de abrir processos na Justiça contra projetos de mineração nos Estados de Minas Gerais e no Rio de Janeiro. 

Na carta, os relatores das Nações Unidas apontam para o Projeto Minas Rio, "operado pela empresa Anglo American Minério de Ferro Brasil S.A.".  

Um dos ativistas ameaçados seria Lúcio Guerra Júnior, fundador do movimento Reaja e defensor de direitos ambientais no contexto do projeto de mineração. Além de ameaças recebidas nas redes sociais, ele recebeu várias ligações telefônicas nos dias 17 e 24 de abril de 2017 oferecendo "serviços funerários". 

Em uma outra carta, os relatores da ONU também alertam para os assassinatos de onze defensores de direitos humanos, desta vez no Pará. 

+++ ONU relata histórias de ativistas sob proteção

Um deles era Rosenildo de Almeida e foi morto em 7 de julho de 2017. Outros dez ativistas foram executados em 24 de maio, entre eles Antônio Pereira Milhomem, Bruno Henrique Pereira Gomes, Hércules Santos de Oliveira, Jane Júlia de Oliveira, Nelson Souza Milhomem, Ozeir Rodrigues da Silva, Regivaldo Pereira da Silva, Ronaldo Pereira de Souza, Weldson Pereira da Silva e Weclebson Pereira Milhomem. 

Recorde. Na avaliação dos relatores, um ativista de direitos humanos morre no Brasil por semana. E isso apenas contando aqueles que trabalham com assuntos ambientais e de acesso a terras. 

"Nos últimos 15 anos, o Brasil tem assistido ao maior número de assassinatos de ativistas ambientais e de terra em todo o mundo, chegando a uma média de uma morte por semana. Os povos indígenas estão especialmente ameaçados", denunciaram no ano passado, em uma carta,  a relatora da ONU sobre os direitos dos povos indígenas,  Victoria Tauli Corpuz, o relator sobre defensores de direitos humanos, Michel Forst e o relator sobre meio ambiente, John Knox, além do relator da CIDH para os direitos dos povos indígenas, Francisco José Eguiguren Praeli.  

Procurado pelo Estado, o Itamaraty não se manifestou. 

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