''Governo JQ foi funesto para o Brasil''

ENTREVISTA

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2011 | 00h00

Luiz Alberto Moniz Bandeira, historiador

RIO

O historiador e cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira testemunhou, como editor de Política do jornal carioca Diário de Notícias, a viagem de Jânio Quadros, ainda candidato, a Cuba, em 1960, e seu encontro com Che Guevara. Para o intelectual, que vive atualmente na Alemanha, o presidente brasileiro "de um lado favorecia os interesses do grande capital, do outro tratava de seduzir a esquerda com a política externa independente que manipulou, teatralmente". A seguir, trechos do seu depoimento ao Estado.

Como foi a viagem de Jânio a Cuba, que o sr. Acompanhou?

A visita de Jânio a Cuba não foi inusitada. Assisti à decisão da viagem, tomada na residência de Carlos Castilho Cabral, no Rio. Quem mais argumentou a favor da ida foi João Dantas, o diretor do Diário de Notícias. Dantas, o senador Affonso Arinos de Mello Franco - que seria depois seu chanceler - e Castilho, que presidia o Movimento Popular Jânio Quadros (MPJQ), entenderam que Jânio não poderia se caracterizar como candidato das classes conservadoras. Jânio não era conservador nem esquerdista. Era um oportunista, assumia qualquer posição, conforme as conveniências. Em Havana, afirmou que, se o que Fidel Castro estava a promover em Cuba fosse comunismo, Cristo, se voltasse à Terra, viria empunhando a foice e o martelo.

O que explica um ato tão brusco como a renúncia?

Na campanha eleitoral, Jânio afirmou que processaria o Congresso perante o povo como responsável pela situação do País, se não lhe dessem condições para governar. Após a eleição, tratou de cooptar Leonel Brizola, governador gaúcho, com o argumento de que, "com aquele Congresso", não poderia tomar iniciativas como a limitação das remessas de lucros, a lei antitruste e a reforma agrária. Era necessário ter poderes extraordinários. Com Carlos Lacerda, a conversa era outra mas a conclusão era a mesma: "com aquele Congresso" não poderia governar sem fazer "concessões às esquerdas". Seu objetivo era romper os limites constitucionais com um golpe aceito pelo consenso nacional.

Qual foi a importância do governo Jânio?

O governo de Jânio foi funesto para o Brasil. Ele renunciou não por pressão das Forças Armadas, e sim para dar um golpe de Estado. Imaginou que as multidões protestariam nas ruas, como aconteceu quando Vargas se suicidou em 1954. E, também, que os ministros militares não permitiriam a assunção ao governo de João Goulart. Assim, ele exigiria do Congresso, para voltar, a delegação das faculdades legislativas.

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