Governo põe sindicalista como relator do mínimo para controlar pressões

O governo federal escolheu o deputado Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT-SP) para ser relator do projeto que reajusta o valor do salário mínimo a R$ 545. A estratégia do Planalto é tentar quebrar a pressão feita pelas centrais sindicais por um aumento maior. Vicentinho foi presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e construiu sua carreira política como sindicalista, onde tem ótimo trânsito.

Marcelo de Moraes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

A estratégia faz parte da pressão do governo para evitar que o reajuste do mínimo ultrapasse os R$ 545 defendidos pela presidente Dilma Rousseff. As centrais sindicais têm pressionado até parlamentares da base aliada para que aprovem um reajuste mais alto, chegando a pelo menos R$ 560. Com Vicentinho na relatoria e na negociação com as centrais, o governo avalia que elas, especialmente a Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao PT, terão constrangimento para pressionar fortemente por um valor maior.

Na verdade, a ação do governo é uma tentativa de frear o movimento no Congresso pelo aumento da proposta. Por saber que parlamentares aliados ameaçam aprovar propostas mais generosas de reajuste do mínimo, como o valor de R$ 560, o governo decidiu também endurecer e exigir fidelidade de todos os partidos alinhados com o Planalto.

Por conta disso, o líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), afirmou que vai considerar como "dissidentes da base" todos aqueles que votarem diferentemente da proposta de R$ 545.

Recado. "A orientação do governo é uma só. Todos devem votar a favor da proposta de reajuste do salário mínimo no valor de R$ 545. A oposição pode até apresentar outras emendas, mas a proposta que governo apoia é apenas essa: R$ 545. E vamos cobrar da base que vote a favor disso", disse Vaccarezza.

Representantes do PMDB, PC do B, PDT e até do PT avaliam que o salário defendido pelo governo poderia ser maior. Além disso, existem outros grupos da base que podem aproveitar a votação para mostrar sua insatisfação por não terem sido contemplados com cargos no governo ou pela perspectiva de corte de emendas orçamentárias.

Pelo menos uma emenda mais elevada será apresentada por um integrante da base governista. O deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), dirigente da Força Sindical, defende que o mínimo suba para R$ 560. Os partidos de oposição defendem reajustes até mais altos. O DEM quer R$ 565 e o PSDB propõe R$ 600. Mas os dois partidos aceitam, nos bastidores, até apoiar a emenda dos R$ 560.

Se não conseguir conter as pressões na base, o governo já tem montada sua estratégia de redução de danos. O plano B passa pelo acordo reservado firmado com a oposição para apoiar a emenda que reajusta o mínimo para R$ 560. Com isso, se não impede que o salário pule para um valor mais alto, pelo menos evitará um prejuízo maior.

E, se for confirmada, a ampliação do mínimo para R$ 560 poderá até ser amenizada. Hoje, as centrais defendem que esse valor seja pago imediatamente, numa antecipação do reajuste que seria feito em 2011 dentro do acordo fechado em 2007 com o governo. Naquele ano, foi criado uma espécie de indexador informal. A correção do mínimo passou a ser feita levando-se em conta a variação do PIB dos dois anos anteriores mais a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

Como em 2010 o INPC ficou em 6,47%, o valor do mínimo seria R$ 543, mas o governo arredondou para R$ 545. O governo ainda permanece reticente sobre uma possível antecipação.

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