Grampo não evitou ataques do PCC a PMs

Polícia sabia que havia um plano de vingança por morte de traficante

José Dacauaziliquá, O Estadao de S.Paulo

03 Outubro 2008 | 00h00

Um grampo telefônico realizado pela polícia em abril revelou um plano do Primeiro Comando da Capital (PCC) para assassinar policiais militares. Motivo: vingança pela morte do traficante Charles Henrique de Almeida, de 23 anos, o Vamp, em abril. Apesar de a informação do conteúdo da escuta ter chegado à Corregedoria da PM, que investigou o caso, três policias foram alvos de emboscadas, em maio e julho, na zona norte. Um deles, o soldado Alexandre Roberto Ferraz, de 33 anos, foi executado com seis tiros. O objetivo da polícia ao grampear os bandidos era outro, mas foi registrada a conversa entre integrantes da facção e um proprietário de máquinas caça-níqueis da zona norte. A PM suspeita de que um grupo de integrantes da corporação fazia bico de segurança para donos de caça-níqueis na zona norte. A região onde aconteceram os ataques aos PMs, próxima do local onde Vamp foi morto, é de responsabilidade do 43º Batalhão da Polícia Militar, um dos que ficavam sob responsabilidade do coronel José Hermínio Rodrigues, morto em janeiro no Mandaqui, zona norte. Ele combatia a máfia dos caça-níqueis na região. Ferraz, o soldado morto, era do 5º Batalhão, também comandado por Rodrigues. TRANSCRIÇÕES A reportagem teve acesso às transcrições do grampo. A primeira escuta telefônica que registra o plano de vingança acontece um dia depois do assassinato de Vamp. O outro foi no dia 8. A conversa se dá entre quatro supostos criminosos (Zé Carlos, Juninho, Favela e uma pessoa não-identificada) e um homem identificado como Alemão, apontado como dono de caça-níqueis. Nos grampos, eles falam sobre um policial rodoviário. De fato, o soldado Odair Boffo, de 41 anos, que trabalha no policiamento rodoviário, escapou de um dos atentados. A Corregedoria da PM disse que ele foi procurado pelo órgão durante as investigações, no começo de maio. À época, ele disse que não sabia sobre as ameaças, segundo apurou a reportagem. Mas no dia 14 de maio, quando conduzia um Peugeot 206, em companhia do soldado Rogério Simões, de 43 anos, que atua na Força Tática do 15º Batalhão, foi alvo de um atentado. O Peugeot foi interceptado por um Fox, na Rodovia Fernão Dias, no Parque Edu Chaves. O veículo ficou com cerca de 20 perfurações de bala. Segundo informações policiais, o fuzil utilizado pela quadrilha travou, o que possibilitou reação. Simões, que ficou ferido de raspão no cotovelo, conseguiu disparar 11 tiros. Ele acertou os bandidos, que fugiram e abandonaram o carro, com manchas de sangue nos bancos, alguns quilômetros à frente. PM ERRADO Segundo as conversas captadas pelo grampo, um policial conhecido como PM Ferraz e que tinha um Uno Branco também estava marcado para morrer. A Corregedoria localizou o cabo Epitácio Ferraz de Freitas, do 43º Batalhão, mas ele não era o único de sobrenome Ferraz na corporação. O PM foi ouvido e disse não estar sendo ameaçado. O soldado Alexandre Roberto Ferraz não foi procurado. Três meses depois do grampo, foi atacado por uma quadrilha armada. Ele dirigia o Uno Branco citado nas gravações na junção da Avenida Stamatis com a Rua Lopes da Costa, no Jaçanã. Quando parou no cruzamento, o veículo foi cercado e o PM levou seis tiros. Ele foi socorrido, mas morreu. ESCUTA TELEFÔNICA 05/04/2008 Homem: Nóis vai buscar os meninos que tá do outro lado lá, que tá nas idéias com o cara (Alemão) da maquininha (caça-níquel) lá. Homem 1: Esse Alemão só tá abrindo a boca pra se enrolar. Homem 2 : Qual Alemão? Homem 1: O que conhece os polícia. Zé Carlos: Põe o telefone na oreia dele (...) Homem: Os cara trabalha em que viatura, na tática? Alemão: Um é rodoviário (...) Homem: E o que matou, é rodoviário ou é da Blazer? Alemão: Não sei te dizer... O do Uno é (policiamento) normal, o Palio é da rodoviária... Homem: O barato é Primeiro Comando da Capital. Nóis não quer saber de riqueza (Alemão seria rico e dono de "empresa" fornecedora de caça-níqueis)... Se você tem conhecimento da situação nóis quer trocar idéia boa com você (...) Nóis quer o rodoviário e quer o PM na mão.

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