Grandes famílias em tempos de correria

Blogs, jantares quinzenais e bolos do mês ajudam a manter laços

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

24 Agosto 2008 | 00h00

Famílias grandes - numerosas a ponto de os mais velhos não saberem ao certo a idade dos filhos nem quantos netos possuem - são modelos cada vez mais raros no Brasil de hoje. E, para continuarem unidas como verdadeiros clãs, são obrigadas a lançar mão de estratégias especiais, capazes de conciliar agendas de dezenas de integrantes, que muitas vezes não conseguem arranjar tempo nem para comparecer às reuniões de escola dos próprios filhos. Para facilitar os encontros, algumas famílias instituem comemorações coletivas de aniversariantes do mesmo mês, outras organizam jantares quinzenais e as mais modernas colocam até blog na internet para rastrear integrantes desgarrados ou totalmente desconhecidos. "Estamos na oitava geração da família. E não sabemos mais quem são nem quantos são os Almeida Prados", diz a matemática Esther Pacheco de Almeida Prado, de 52 anos, que pertence à sexta geração. "No último levantamento que fizemos, calculamos cerca de 6 mil espalhados pelo Brasil." Mas o grande ponto de concentração da família é Jaú, cidade do interior de São Paulo que abriga cerca de 300 Almeida Prados. Alguns nem assinam o sobrenome da família: caso de Ari José Bauer, de 92 anos - um Almeida Prado por parte de mãe. "Achar alguém da nossa família em Jaú é muito fácil. Basta perguntar na rua. Todo mundo da cidade sabe", diz Esther. "Mas queríamos encontrar os outros que estão por aí e nem conhecemos para comemorar os 150 anos da chegada dos primeiros integrantes da família à região."A saga da família começou com João de Almeida Prado, capitão-mor de Itu, uma espécie de administrador da cidade, que teve 22 filhos, dos quais 6 foram para Jaú, onde se fixaram na cidade, lavrando a escritura da primeira propriedade local em setembro de 1858. "Há cinco meses, colocamos na internet um blog (http://almeidaprado150jahu.blogspot.com/)." Até 13 de agosto, a página teve 13.690 acessos. Parentes distantes colocaram fotos na página da internet e trocaram e-mails. "Conheci uma prima minha pelo blog. Somos contemporâneas", diz Esther. "Trocamos mensagens e descobri que nossas bisavós são irmãs. Foi o máximo." A celebração da família, que será no dia 13 do mês que vem na sede de campo do Jahu Clube, tem uma comissão de 12 organizadores. Os convites custam R$ 50. E as pessoas estão se inscrevendo pela internet. "Com tanta gente assim, todos têm de colaborar ao menos com o ingresso do convite. Não dá para patrocinar uma festa desse tamanho." TODA QUARTA-FEIRA Na capital paulista, também há sobrenomes de peso que participaram da formação da cidade e hoje integram outras famílias numerosas. Um bom exemplo são os Matarazzos. "Houve um tempo em que todos moravam mais ou menos perto, o que simplificava muito visitas e reuniões. Eu ainda moro perto da minha mãe e da minha irmã, mas os meus filhos se dispersaram. Dos sete, três foram morar em outra cidade", diz Vera Matarazzo Suplicy, de 72 anos. "Rony, de 50 anos, abriu um restaurante na Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte; Marcelo, de 45, casou com uma moça de Joinville (SC); Aguinaldo, de 51, anunciou agora que está de mudança com a mulher, Mônica, para o Rio." Ter sete filhos para um Matarazzo não é tanto assim. A mãe de Vera e do senador Eduardo Suplicy, Filomena Matarazzo Suplicy, de 99 anos, tem 11 filhos, 36 netos e 58 bisnetos. Seu pai, o Conde Andrea Matarazzo, teve 6 filhos e 12 irmãos. Reunir todos hoje, como fará a família Almeida Prado, só em grandes datas. E isso acontece, por exemplo, em comemorações como casamento e Natal, quando o clã celebra uma missa no salão de festas do prédio onde mora Filomena, nos Jardins. "Antes, tínhamos os almoços das quartas-feiras", diz Vera. Compareciam todos filhos, genros e noras e alguns netos. Vítima do mal de Alzheimer, Filomena já não tem a mesma disposição de antes - em setembro completa 100 anos. Quando jovem, deu à luz a quase todos os filhos no casarão da Avenida Paulista, ao lado do Parque Trianon, região central da cidade. Só o caçula nasceu no Hospital Matarazzo. Até hoje, Filomena faz questão de ver a casa impecável e, todos os dias, às 18 horas, reza o terço. Hoje, como fica cansada com reuniões grandes, os almoços foram cancelados. Os filhos de Vera sentiram falta dos encontros e pediram à mãe que organizasse jantares quinzenais. "Apesar da correria, quando os laços familiares são bem construídos, com maturidade e sem imposições, os encontros são espontâneos e mais fáceis de acontecer", diz Magdalena Ramos, professora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. "Cresci com a casa cheia, não consigo ficar longe da família. É bom ter muitos irmãos", diz Vera. Mas isso também tem seus inconvenientes. "Eram tantas as comemorações de aniversários que quase todo fim de semana tinha festa na casa de um filho. Até que começaram as reclamações. Ninguém conseguia ter qualquer outra atividade social além de apagar velinha", conta a viúva Maria Aparecida Dall?Ovo, de 68 anos, mãe de 15 filhos - dez homens e cinco mulheres - e avó de 26 netos. A solução veio quando decidiram institucionalizar o bolo dos aniversariantes do mês. No primeiro sábado de agosto, por exemplo, os Dall?Ovo comemoraram o aniversário de quatro netos de uma só vez. "Sempre gostei de casa cheia. Quando era jovem, meu marido olhava para toda aquela criançada deitada no chão, vendo TV, e dizia com orgulho que nem parecia verdade que eram nossas." O carro da família era uma Kombi, o único modelo compatível na época. "Não foram raras as vezes em que meu marido levou as crianças para a escola e, ao chegar ao trabalho, percebeu que havia sobrado uma dormindo no banco traseiro da Kombi." As crianças cresceram, casaram e tiveram filhos, e uma reunião comum do clã conta hoje com no mínimo 57 pessoas - isso sem contar irmãos, cunhados, primos e sobrinhos. E, como recentemente Aparecida mudou para um apartamento de dois dormitórios, onde vive com a filha caçula, quando todos aparecem, ela desce para o salão do prédio. Ai, é que a visita ganha mesmo cara de festa.

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