Grávida baleada passa de vítima a suspeita

Polícia de Curitiba apresenta fita, que será periciada, em que mulher teria combinado roubo e até tiro na barriga; ela nega acusações

Evandro Fadel, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2014 | 00h00

A funcionária de um posto de combustível de Curitiba, grávida de 17 semanas, que levou um tiro na barriga durante assalto em 14 de maio, passou de vítima a suspeita de participação no roubo. O delegado Rubens Recalcatti anunciou ontem que Patrícia Cabral da Silva, de 22 anos, foi indiciada em razão de uma gravação, em que supostamente admite o crime. Ela é suspeita de ter elaborado todo o plano, inclusive o tiro, que serviria para pleitear uma indenização de R$ 150 mil. Os cerca de R$ 60 mil roubados de um cofre seriam divididos entre seus três supostos sócios que concretizaram o assalto. A confirmação da suspeita depende de perícias em uma fita cassete, que teria sido gravada por Luiz Carlos Cândido, que está foragido e é um dos acusados do roubo. A fita foi apresentada à polícia pelo advogado José Carlos Veiga, que defende Sidimar Tiago Oliveira, acusado de ter dado o tiro. Ele se entregou à Justiça na semana passada. O outro acusado é Márcio Leandro Rezende, que também está foragido. Segundo Recalcatti, o Instituto de Criminalística do Paraná está examinando se não houve montagem na fita e fazendo a degravação oficial. Depois, deve ser enviada para um instituto fora do Paraná para confrontação de vozes. No entanto, a partir de uma degravação feita pelo próprio delegado, ele encontrou indícios de culpabilidade. ''''Ela passa de vítima a ré, agora já está indiciada'''', acentuou Recalcatti. Se comprovada a autenticidade da fita, o delegado não descarta um pedido de prisão. Posteriormente, a aceitação da fita como prova dependerá do Ministério Público e da Justiça. Na gravação de cerca de seis minutos, divulgada sábado pelo advogado, duas pessoas, supostamente Cândido e Patrícia, conversam por telefone. O diálogo desenvolve-se como se todo o assalto tivesse sido tramado por Patrícia. O PLANO Em certo momento, o homem diz: ''''Imagina, você diz que tinha tudo esquematizado, tudo certinho esse plano. Agora, o que está repercutindo é esse negócio do tiro que você pediu que desse pra você''''. Ela tenta tranqüilizar: ''''Ó, escute uma coisa, não se preocupe''''. Ele reclama por ela não ter dito que estava grávida. ''''E olha que você bolou isso por um bom tempo'''', recrimina o homem. Ela pede para ele ficar tranqüilo, porque a polícia já prendera os suspeitos do roubo e ela iria na delegacia reconhecê-los. A gravação foi feita no dia 25 de maio, e, naquela época, três pessoas estavam presas. No entanto, em 13 de junho, a polícia encontrou o cofre levado no assalto em um poço na Vila Fanny. As novas investigações descartaram a culpa dos até então presos e a polícia identificou os agora indiciados. Na fita, em dado momento, a mulher revela que o tiro visava a receber uma indenização. ''''Cento e cinqüenta mil reais eu vou pedir'''', diz. ''''Você vai pedir 150 mil de indenização?'''', pergunta o homem. ''''A-hã'''', confirma ela. Ela também reclama que eles não levaram os três computadores, mas apenas dois, o que permitiu a gravação das imagens no circuito interno. De acordo com o advogado Veiga, as imagens mostram Oliveira voltando para dentro do escritório, depois de roubar o cofre, para dar o tiro, porque somente naquele momento ele teria se lembrado dessa parte do plano. ''''Não é um facínora, não é um monstro, ele só voltou porque esqueceu do combinado'''', defendeu. Veiga disse que o tiro deveria ser ''''de raspão'''', mas a moça teria se virado na hora, sem qualquer explicação. Segundo ele, a gravação foi divulgada agora porque esperavam que ela levasse a gravidez até o final. Havia muito risco, já que a bala continuava alojada no abdome. O parto foi feito no dia 20 de agosto e a criança nasceu saudável. O advogado acentuou que os três rapazes conheceram Patrícia no próprio posto de combustível. Na delegacia, onde compareceu para prestar depoimento e ser indiciada, levando no colo a filha, Patrícia disse que considera um ''''absurdo'''' a acusação que está sendo feita contra ela. ''''A única coisa que tenho a dizer é que todos os esclarecimentos que eu tenho que dar eu já dei para as autoridades policiais.Eu vou explicar isso à polícia. Não tenho nada a declarar a vocês.'''' Segundo o delegado, ela negou participação no crime e que fosse dela a voz na gravação. TRECHO DA GRAVAÇÃO Trecho da gravação apresentada por advogado: Assaltante: ''''O que mais está repercutindo é esse negócio de tiro, que você pediu que desse pra você'''' Voz de mulher : ''''Ó, escute uma coisa. Não se preocupe'''' Assaltante: ''''Não se preocupe?'''' Voz de mulher : ''''Estou falando pra não se preocupar. Não tem o que se preocupar'''' Assaltante: ''''E a indenização? E a indenização? Você vai ganhar alguma coisa?'''' Voz de mulher: ''''R$ 150 mil eu vou pedir'''' Assaltante: ''''Você vai pedir R$ 150 mil de indenização?'''' Voz de mulher: ''''(confirmando) A-hã''''

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.