Washington Alves/Reuters
Washington Alves/Reuters

Grávida, deficiente físico e 'casal da Vale' estão entre desaparecidos em Brumadinho

Parentes pressionam por mais informações e acompanham atividades de buscas dos bombeiros. 'Já estamos perdendo a esperança', diz amiga de desaparecida

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2019 | 03h00

Três dias após o rompimento da barragem 1 da Vale do Córrego do Feijão, moradores de Brumadinho vivem uma corrida contra o tempo em busca por seus desaparecidos. Segundo último balanço do Corpo de Bombeiros, o mar de lama deixou, até o momento um rastro de 58 mortos e outros 305 parentes, amigos ou vizinhos de quem não se tem notícia desde a tragédia. Entre os desaparecidos, há mulher grávida, deficiente físico e até um "casal da Vale".

Na lista de desaparecidos divulgada pela empresa, consta o nome de Juliana Resende, de 33 anos, que é analista em um armazém da mineradora. Também na relação, aparece Dennis Silva, de 34, técnico de planejamento e controle.

Segundo familiares, os dois se conheceram na empresa, começaram a namorar pouco depois e casaram. Recentemente, a família até cresceu. Há cerca de dez meses, vieram os primeiros filhos. Dois meninos: gêmeos. "Quando estava começando a construir uma família, acontece uma catástrofe dessa", afirma Alese Junior Resende, de 19 anos, irmão de Juliana.

Por causa da pouca idade, as crianças ainda não sabem que os pais estão sumidos nem que a família suspeita que podem ser encontrados sem vida, sob a lama. "Os meninos são muito novos para saber o que aconteceu, mas estão inquietos desde sexta. Não ficam mais do mesmo jeito. Acho que, querendo ou não, eles sentem", diz.

À família, contaram que Juliana estaria em uma reunião quando a barragem estourou. "As pessoas dizem que ela pegou a mochila, colocou nas costas e foi para outro lugar. De lá, a gente não sabe mais de nada", conta Resende. "Notícia não tem nenhuma, nem boa nem ruim."

Segundo o irmão, os parentes ficaram incomodados após os bombeiros anunciarem a suspensão de buscas por boa parte deste domingo, 27. Os bloqueios na cidade também impediram de tentarem achá-los por conta própria. "Esse trem todo deixa a família ainda mais angustiada", afirma. "É um descaso com a população."

"Minha mãe já chorou muito, agora está mais calma. A gente dá chá para ela, ela reza para Nossa Senhora de Aparecida o tempo todo", diz Resende. "Na sexta, ela perdeu o horário do trabalho. Só que ela nunca, nunca, nunca faltou ao serviço, então pegou o carro e foi para lá. Parece que Deus não queria..." 

Angústia também vive a família de Juliana Esteves da Cruz Aguiar, de 28 anos, funcionária administrativa da Vale. "Falei com o esposo dela várias vezes, estão muito abalados", conta a amiga Amanda Miranda, que diz conhecer ao menos mais sete pessoas que continuam desaparecidas. "Tanto em Brumadinho quanto nas cidades vizinhas todo mundo está de luto. Você vai ao mercado e fica aquele silêncio, ninguém fala nada."

Segundo amiga, Juliana havia voltado a trabalhar neste mês, após licença maternidade. "Ela tem uma filha de quatro meses e um menino que completou 2 anos em dezembro."

Já a cabeleireira Letícia Mara, de 20 anos, quer saber o paradeiro da mãe, Sueli de Fátima Marcos, de 39, que é portadora de uma má-formação congênita no pé. Funcionária da Vale há mais de 10 anos, ela estava na mineradora no momento que a barragem estourou.

"Minha mãe tem deficiência física, não sei se ela conseguiu fugir. Ela não aguenta correr. Estava em horário de almoço, a gente não sabe se ela estava no refeitório ou na usina", diz Letícia. "Estamos tentando manter a calma ao máximo possível. Só que uma hora um acaba desmoronando e todo mundo fica triste junto. Não tem o que fazer."

Namorada de Everton Guilherme Ferreira Gomes, de 20 anos, outro desaparecido da lista da Vale, a estudante Camila de Amorim, também de 20, diz ter esperança de encontrá-lo. "Estamos marcando os bombeiros e transmissoras de TV pelo Instagram", conta. Para ela, o namorado pode ter corrido para uma mata e perdido o contato desde então. "Tenho certeza que vamos encontrar o Everton. Tem muita gente pedindo pela vida dele."

Pousada foi engolida por lama

Eram 11h05 quando a administradora de empresas Fernanda Damian de Almeida, de 30 anos, mandou sua última mensagem no Whatsapp, avisando que havia chegado bem a Belo Horizonte na sexta-feira. Grávida de quatro meses e estudando na Austrália, estava no seu primeiro dia de férias no Brasil.

O plano era se reunir com o noivo e a família dele, então hospedados na Pousada Nova Estância, em uma área de mata em Brumadinho. "Depois disso, ela não retornou mais. Nem ela nem ninguém", conta a amiga Vanessa Stagine, de 35 anos.

O que todos sabem: após a barragem da Vale romper, a pousada foi destroçada pela lama. "A família do noivo já estava lá, mas a gente não sabe se ela chegou ou não", diz a amiga.

Com a tragédia, funcionários e hóspedes da Nova Estância engordaram a lista de desaparecidos. Embora nenhum deles conste entre as vítimas identificadas pela Polícia Civil, a rede Number One chegou a divulgar nota informando a morte do proprietário da pousada, Márcio Paulo Mascarenhas, fundador da escola de inglês, além da mulher dele e de um filho. 

Já sobre Fernanda, não há notícias. "A gente está na internet, procurando em grupos com mais de 300 pessoas, ninguém sabe de nada", conta Vanessa, que mora em Curitiba, a cidade natal da amiga desaparecida.

Também não foram encontrados o noivo Luis Taliberti Ribeiro Silva, de 33 anos, o sogro Adriano Ribeiro da Silva, de 60, a sogra Maria Lourdes Ribeiro, de 58, e a cunhada. A família atua no setor imobiliário no interior de São Paulo. Fernanda espera um menino. "É a primeira gravidez. Ela estava muito contente com tudo", conta Vanessa. "O pior é não conseguir informação. Já estamos perdendo a esperança."

 

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