Greve é a maior rebelião na Aeronáutica desde 1963

A revolta dos controladores de vôo militares nesta sexta-feira em todo o País é a maior rebelião de militares ocorrida na Aeronáutica desde a dos sargentos, liderada por Antônio Prestes de Paula, em 1963, em Brasília. A diferença é que o protesto ficou restrito a um grupo menor dos praças, os controladores, enquanto que, no passado, atingiu diversos setores da Força Aérea.Essa é a avaliação de oficiais generais ouvidos pelo Estado. Alguns deles temem que, dependendo de como a crise for debelada, a questão salarial possa se tornar explosiva nas Forças Armadas, com movimentos reivindicatórios atingindo outros setores, e criticam o antigo comandante da Força, o tenente-brigadeiro Luiz Carlos Bueno.?O que está ocorrendo é o modelo típico de 63: meia dúzia de sindicalistas radicais insuflando a tropa?, afirmou o tenente-brigadeiro da reserva Sérgio Ferolla, ex-presidente do Superior Tribunal Militar (STM). Na rebelião de 63, os sargentos tomaram a Rádio Nacional, cortaram as ligações telefônicas de Brasília com o País e detiveram oficiais e um ministro do Supremo Tribunal Federal em protesto contra a decisão do Tribunal de declarar inelegíveis os praças e cassar o mandato de dois sargentos. A revolta foi reprimida pelo Exército, que prendeu 600 sargentos.Ao comparar os dois movimentos, Ferolla, um dos mais respeitados oficiais da Aeronáutica, quis ressaltar o que chamou de contaminação sindical da tropa. Para ele, está ocorrendo insubordinação. ?O que estão fazendo com os passageiros é traição ao País, que está refém de alguns sargentos?. E defendeu ?cadeia grossa para quem está comandando isso aí?.Um oficial general ouvido pelo Estado contou que há ?mágoa na Aeronáutica com a administração anterior?. Brigadeiros avaliam que Bueno, o antigo comandante, privilegiou áreas como a de atendimento às autoridades, com investimentos no Grupo de Transportes Especiais (GTE), e esqueceu-se da área operacional, ?que é a razão de ser da Força?. Ao GTE está subordinado o Airbus A-391, o novo avião comprado por R$ 56,7 milhões para transportar o presidente da República.Para o oficial, o cenário não é como o de 64, quando o movimento dos praças contribuiu para a derrubada do governo de João Goulart. Isso porque o problema é localizado e não houve contaminação ?nem do Exército, nem da Marinha?. O oficial, no entanto, acredita na capacidade do novo comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, para resolver a crise.Um outro oficial general afirmou que não se deve esquecer a falta de investimentos nos equipamentos das Forças Armadas, que perdem sua capacidade de dissuasão. Deve-se lembrar também que o problema salarial é grave, mas não se pode pagar salário diferenciado, exceto no caso das gratificações. ?Do contrário, daqui a pouco o mecânico de radar também vai querer protestar?.Crise nas Forças ArmadasPara o general, as Forças Armadas passam por uma crise. ?O nível de insatisfação é grande. Tanto o praça quanto o oficial ganham pouco e estamos vendo uma fuga de quadros experientes para outras carreiras.? Ele contou o caso de 13 primeiros-tenentes da Marinha que se recusaram a fazer a escola de aperfeiçoamento naval, necessária para o oficial ascender na carreira, porque pretendiam fazer um concurso público. ?Jogaram eles num navio. Não funciona. Somos uma carreira de Estado e devemos ganhar de acordo com isso?.O professor do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Paulo Ribeiro da Cunha, estudioso dos movimentos militares, disse que o movimento dos controladores de vôo deve ser entendido dentro de um contexto maior, que envolve o movimento das mulheres de oficiais que protestam por aumento salarial e outros casos de sargentos que estão se mobilizando para fazer valer suas reivindicações. ?Há uma associação de sargentos do Exército no Rio que é exemplo disso. Aliás, existe uma tradição de movimentos de reivindicações por questões corporativas que remonta a 1915, 1916?.Para Cunha, embora do ponto de vista técnico a situação em Brasília ?esteja próxima da ruptura da hierarquia?, ela se deve a um problema que se agravou ao longo dos anos. ?E o comando não sabe lidar com esse problema, que é político, fora dos pressupostos da hierarquia e da disciplina?.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.