Grupo ameaçou testemunhas e fraudou perícias

Nas ações da Rota denunciadas pelo soldado P. havia sempre o risco de alguém ver o que não deveria. Assim, o que seria a morte em tiroteio de dois ladrões que cumpriam pena em regime semi-aberto por pouco não virou uma dor de cabeça. É que uma pessoa viu tudo - um preso que voltava para a mesma cadeia das vítimas. "Eram dois caras numa moto que foram parados na estrada, a caminho do presídio. Estavam no semi-aberto", disse P. "Eles foram levados pra Cotia. A ocorrência foi dividida. Um ficou com o sargento M., o outro quem pegou foi um oficial." - Como o pessoal soube do outro preso que viu tudo? "Porque um PM morava perto da casa de um dos mortos e os familiares comentaram com o policial: ?O fulano estava junto e viu a viatura que pegou os dois na estrada.? Os parentes queriam procurar o Ministério Público e a corregedoria para denunciar. Aí, por meio desse PM, mandaram o recado: ?Na moral, já morreu, não vai atrás, que vocês podem achar problema; o pessoal pode vir aqui e matar todo mundo da família.? Você sabe: o pessoal da periferia é desprovido de qualquer coisa." MARCAS DE BALA Alguns homens da Rota também fraudaram perícias. P. relata o caso do sargento A. e do soldado C., que fizeram uma "derrubada" na zona leste. O esquema foi o mesmo de outras vezes. Um amigo registrou a queixa de roubo de um carro, que foi entregue aos policiais para simular a perseguição que justificaria a morte dos suspeitos. Eis o relato de P.: "Esse caso deu um bochincho no batalhão. Quando o oficial de serviço no dia chegou ao local, não tinha tiro pra lá e pra cá (marcas que comprovariam o tiroteio com os bandidos). Daí tiveram de dar tiro na parede pra cá, tiveram de dar tiro pra lá. Os corpos apresentavam sinais de chamuscamento (de tiros à queima-roupa). Tiveram de passar benzina em volta do corpo. Tiveram de fazer uma pá de coisa. Isso acabou - não sei como - chegando no ouvido do comandante da companhia. Mas aí se deixou quieto." DESOVA O soldado denuncia também a simulação de um ataque do PCC a uma viatura da PM na Grande São Paulo. Policiais da Rota arrumaram o carro de um amigo e telefonaram para o 190, informando sobre o roubo. Quando policiais da cidade apareceram, os homens da Rota atiraram, sem mirar, na viatura. Pensando se tratar de um ataque, a viatura deu alerta pelo rádio. "Eles (a Rota) chegaram como se estivessem no apoio", diz P. "Teve dois ou três mortos." O boletim de ocorrência registra dois. Um deles havia saído de um presídio de regime semi-aberto para visitar a família. - Eles já estavam mortos quando houve a perseguição? "Já estavam mortos. Você mata e põe na viatura. Você tem dez minutos pra fazer isso tudo. Vamos supor que, por uma desgraça, não dê certo. O que você faz? Você pega os cadáveres e joga fora. Tem um monte que foi jogado fora." REPÓRTER P. aponta a promiscuidade entre um jornalista e policiais e diz por que contou o que sabe: "É assim: isso (as execuções) é uma prática corriqueira e tem de parar. Não adianta, não vai resolver nada. Nessa brincadeira, ô Marcelo, algumas pessoas que não tinham nada a ver foram embora também...? - Algum caso que você saiba? "É tanta coisa que fica difícil absorver. Pra mim, é um negócio cotidiano, pra você não. Teve um prédio (oficialmente atacado pelo PCC) na zona norte, que passou na televisão. Não sei se você conhece o repórter X., mas ele tem amizade muito grande com a Rota, com a Força Tática. Ele participou de muita coisa, já viu muita coisa. O pessoal confia nele. Aquilo ali foi montado, porra! Aquele ataque ele filmou, tiro e carro roubado, mas o cara já estava morto. É o mesmo esquema. Pára. Tem umas coisas que aparecem na TV que eu falo: ?Não é possível que ninguém veja isso!?"

O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2024 | 00h00

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